quarta-feira, 31 de agosto de 2011

"Tudo o que a gente faz é um pedacinho de cidade"

        No mês de agosto, aqui em Caxias, pude prestigiar as palestras de dois importantes arquitetos brasileiros, Marcelo Ferraz e Ruy Ohtake.
            A primeira palestra, do Ferraz, aconteceu no Campus 8 da Universidade de Caxias do Sul e fez parte do 1º Congresso Nacional de Arquitetura. Seu título era “Esquecer para lembrar”. A princípio pareceu um pouco confuso, até mesmo um enigma a ser decifrado. Fiquei me perguntando:-“Como assim? Esquecer para lembrar? O que isto quer dizer?”
            “Esquecer para lembrar” está relacionado com a temática do patrimônio. O arquiteto abordou conceitos complexos de forma simples sobre como podemos intervir em áreas e edificações históricas. Segundo ele, esta expressão tem haver com as escolhas que o arquiteto tem de fazer diariamente e que estas interferem na vida das pessoas: é a responsabilidade civil deste profissional.
            Em termos práticos, quando nos deparamos com um bem material, temos que nos posicionar e fazer o juízo de valor sobre ele. No projeto de arquitetura, o que fica? O sai?
Muitas vezes pode-se valorizar um patrimônio, retirando-se uma parte e colocando uma nova que adapte a obra aos dias atuais, que a resignifique para a comunidade. Demolir uma parte do antigo para colocar o novo pode ser polêmico e muitos podem não aceitar. Por outro lado, podemos pensar que lembraremos muito mais do bem e das histórias relacionadas à ele, se ele tiver um novo significado. Esquecer para lembrar... a pergunta foi lançada pelo arquiteto:-“O que seria da memória sem o esquecimento?”
            Esta postura frente ao patrimônio me parece muito adequada à contemporaneidade, mas ainda não está incorporada pela maioria, gerando ainda polêmicas. Ferraz analisou bem o panorama de hoje: de um lado os preservacionistas; de outro, os demolidores. Disse que não deveríamos ficar neste padrão. E porque não encontrarmos um equilíbrio?
            Para combater esta dualidade e encontrar o ponto médio entre demolir ou preservar, propôs ações em duas pontas, sendo a primeira, formação e educação, e a segunda, experimentação controlada. Criando esta “massa crítica”, vislumbrou a possibilidade de que, um dia, não precisemos de órgãos de preservação para manter nosso patrimônio.
            O patrimônio edificado deve ser preservado, porém não pode virar empecilho. Também não pode ficar abandonado ou ser demolido. A cidade deve se refazer, não podemos congelá-la. A arquitetura deve estar a serviço das necessidades do homem. Tendo em vista estes condicionantes, o trabalho do arquiteto pode contribuir para encontrar este equilíbrio entre demolir e preservar.  Temos que lembrar que o planejamento urbano através do plano diretor, pode regrar isto. Sabemos que, em muitos casos, a preservação do patrimônio e o plano diretor não andam juntos. Fica este assunto como “cenas do próximo capítulo”.
            Ferraz apresentou alguns projetos, somente museus. Aquela arquitetura “desceu redondo”, assim como a palestra inteira. Os projetos mostravam as teorias que recém havia comentado.  No início da palestra o arquiteto disse que carecemos de conversa. Disse que a arquitetura deve ser “conversável”, que tenha significado e     que toque o coração das pessoas. Ao final percebi claramente isto que queria dizer. Os projetos conversaram, deixaram claro seu significado e tocaram o coração. Não preciso dizer que sou sua fã, né? O tenho como referência na minha trajetória profissional, só não digo guru para não parecer fundamentalista.
            Bom, isto que não fui visitar nenhuma de suas obras. Espero que, quando isto acontecer, a experiência se torne completa. Ruy Ohtake, na sua palestra, disse que entende por arquitetura aquela que foi construída. E realmente, a experiência de um indivíduo com a arquitetura pressupõe o seu percurso dentro e fora dela. É o que Bruno Zevi e “Saber ver a arquitetura” denomina de a quarta dimensão da arquitetura.
            Ohtake mostrou muitos de seus projetos, mas gostei do que falou sobre a questão de seguirmos nossa intuição. Se tivermos a intuição de uma forma, não ignorá-la, mas trabalhá-la para que possa ser empregada no projeto. No hotel Unique, ele teve a inspiração de uma forma que lembrava um semicírculo e esta se repetiu tanto na forma do edifício, como na planta.
            Dentre todos os conceitos e projetos abordados tanto pelo Ferraz como pelo Ohtake, ambos os arquitetos mencionaram a questão do convencimento. O Ferraz falou sobre a questão do arquiteto atuante, em que este possa perceber os problemas e potenciais de áreas da cidade e faça propostas às prefeituras ou iniciativa privada para fazer acontecer o projeto. Isto nem sempre sai “de primeira”, o processo pode demorar anos, gestões de prefeituras e etc. Disse, então, que este trabalho é um “eterno convencimento”. Ohtake contou um episódio em que convenceu os donos de um empreendimento a fazer as sacadas do prédio em curvas, uma diferente da outra, mesmo que isto tivesse um custo muito mais elevado. Conseguiu isto, pelo fato de ter convencido que a forma do edifício agregava maior valor ao empreendimento.
            As visitas destes dois arquitetos foram importantes e inspiradoras para a prática da arquitetura em Caxias. Para tecermos os “pedacinhos de cidade”, como disse o Ferraz, atuando em diversas escalas, envolvendo o patrimônio, ou não, faz-se necessário o aprimoramento do conhecimento. O enriquecimento do repertório arquitetônico e das vivências fazem com que o projeto, este “transformador de realidade”, fique cada vez com mais qualidade e responsabilidade. E isto pode contribuir para uma cidade melhor.