sexta-feira, 15 de julho de 2011

TIC



    Neste momento, estou na sala da minha casa, prestes a escrever uma nova postagem neste blog. Abro o documento em branco e entre um pensamento e outro escuto as badaladas das dez da noite, do relógio da Igreja de São Pelegrino.
As badaladas dos relógios são marcantes no cotidiano de uma cidade e também no imaginário da gente. Os toques e badaladas dão o ritmo, o pulso, marcam o início e o final de um dia de trabalho, a hora de acordar, de dormir, no caso da igreja de cultuar e rezar, mesmo que as pessoas talvez já não o sigam mais tanto.
 Quando morava no Bairro Rio Branco, na subida da Tronca, onde era o antigo bairro lusitano, sabe? Não? Não sabe? Perto do Juventus... Bom, a história do antigo Bairro Lusitano fica para uma próxima postagem. Mas enfim, ouvia a Ave Maria de Gounod tocar às 18:00h, sempre que estava em casa e que o vento trazia a melodia para perto.
Hoje, morando em São Pelegrino, logo nas manhãs acordo, algumas poucas vezes com a Igreja, mas logo dou bom dia a ela. Tenho uma visão privilegiada da janela da minha cozinha. Logo, olho o seu relógio e começo a contar as horas, vou ao banho e cronometro o meu tempo pelo toque dos quinze minutos. Embora muitos não escutem, ele toca de quinze em quinze minutos e nas horas cheias, badala. O toque da missa também é diferente e, diga-se de passagem, tem o poder de um imã, ele chama mesmo. Praticamente convoca. Pois é, o relógio, este senhor do tempo, me avisa se estou muito demorada em baixo d’água, se o tempo de infusão do meu chá ultrapassou, se estou atrasada.
Demorei em me acostumar com o ritmo deste tic-tac. Aliás, o som é mais parecido com “blém-blém-blém”. Havia muito tempo não usava mais relógio, a não ser aquela olhadinha no celular ou o despertador, e o toque de quinze em quinze minutos me parecia frenético. Era muito chato este som avisando que o tempo passou, esta passando, a vida passa e passa.
Houve um dia em que ocorreu um episódio engraçado. Eu estava deitada no sofá, curtindo um ócio, e o relógio a milhão tocando os quinze direto e quando deu uma badalada – e naquele dia parecia ainda mais forte – eu comentei: –“Mas, "jogá" uma bomba nesse relógio é pouco!”
No dia seguinte, dei bom dia ao relógio da igreja, como de costume, e ele me disse – “Ana Lia, 09:40h”. Minutos depois, saí. Para chegar ao meu destino, tinha que passar pela Avenida Rio Branco, e é claro, dei aquela olhadinha pra cima e de repente, percebi que havia algo errado. O relógio continuava marcando 09:40h. Pensei: -“esse relógio está estragado”.
Juro que não foi praga, a vida é mesmo feita de coincidências. E vocês hão de convir comigo que seria muita prepotência achar que, justo uma  praga minha, ao relógio da Igreja, iria surtir algum efeito!
Os dias sem os toques foram estranhos, confesso que, embora de início estivesse incomodada, passei a sentir falta. Com o relógio parado, perdi o da minha cozinha, e este, para arrumar não seria simplesmente espichar o braço, retirá-lo da parede e trocar sua pilha. Tive que controlar o tempo de cozimento do meu feijão no microondas – funcional, mas menos romântico. 
O relógio da Igreja ficou alguns dias sem o ponteiro, uma imagem muito inusitada. Muitos e muitos turistas tiraram fotografias e levaram a recordação deste monumento com um pequeno, porém não menos significativo desfalque. Foi necessário o braço de um guindaste para retirar e colocar os ponteiros. Fotografei tudo.
Fiquei meio perdida por não ter mais um certo controle sobre o tempo. O que antes criticava e por isso não usava relógio, agora me estava fazendo falta. Muitos dos que vivem e convivem em São Pelegrino sentiram o mesmo. Uns achavam melhor e outros pior.
Busco diariamente, encontrar uma forma de me relacionar com o pulso do relógio, de uma maneira equilibrada. O utilizo para me ajudar a organizar o dia, sem me submeter a ele, se não quiser. Nem sempre acordo com ele, muitas vezes vou dormir muito mais tarde, mas às vezes vou à missa, quando dá vontade. Continuo tendo rompantes de amor e ódio em relação às badaladas, mas não deixo de me comover, às dezoito horas, com a Ave Maria.

TAC


Minha história com os relógios de Caxias não terminou. E acredito que não terminará tão cedo enquanto ambos existirmos. É natural numa cidade com fortes características industriais como a nossa, termos relógios espalhados e em monumentos, ditando nosso ritmo, como no caso da igreja São Pelegrino.

Mas o fato que vou contar em seguida foi um momento onde a magia aconteceu e eu estava sentada em um banco da praça Dante Alighieri, minutos antes do meio-dia, em um dia da semana.
Não, eu não estava alimentando pombos. Estava ali, estrategicamente em frente à Catedral, para analisar o cenário para o próximo desfile da Festa da Uva, que terminará na praça, com um grand finale.
Ao meio-dia o sino começou a soar. Era um lindo som. São raros os dias que me encontro no centro neste horário e, portanto, me senti num momento especial, de pura poesia. Desfrutei daquilo apreciando o cenário urbano com trilha sonora, até que as badaladas foram ficando mais baixas e mais esparsas como se estivessem se distanciando em direção ao infinito. Eu estava em êxtase aguardando o silenciar para me levantar e almoçar (afinal havia marcado a hora do almoço).
Instantes depois fui pega de surpresa. Ao final do soar do sino da catedral, surgiu um pulso marcante, um badalar forte e com personalidade. O som vinha da minha esquerda. Os dois sons se cruzaram por uns instantes, como numa polifonia, mas ao final ressoou apenas uma das vozes, esta menos melodiosa, menos reverberante, mais ríspida. Foram doze badaladas. E só. Havia se manifestado o relógio da indústria, o som vinha do relógio do edifício onde funcionava a Metalúrgica Abramo Eberle.
Ao ouvir esta sequência quase musical, me questionei se esta seria mais uma das coincidências da vida. Os relógios da Catedral e da antiga Eberle pareciam estar sendo regidos por um maestro. Quando uma melodia estava piano e sumindo, ele deu a entrada para a outra forte. Nos tempos exatos.
Após refletir e compartilhar esta história numa aula da especialização em Bens Culturais que estou fazendo, chegamos à conclusão de que não tenha sido ocasional este arranjo tocado pelo sino e relógio. Não voltei mais lá ao meio-dia para verificar se o mesmo aconteceria. Mas seria estranho os dois soarem ao mesmo tempo. Parece ter havido uma hierarquia nas manifestações – primeiro o da igreja, e depois o do que foi uma das maiores e mais influentes indústrias da história de Caxias.
Hoje o edifício encontra-se parcialmente utilizado pela FAI – Faculdade dos Imigrantes, por um estacionamento e por uma loja de brinquedos. Parte encontra-se em desuso.
Este edifício por muito tempo ficou fechado, em desuso, abandonado. Não estou certa, mas arrisco dizer aqui que talvez tenha um elemento que não parou de funcionar durante todo este tempo: o relógio.
É interessante ressaltar este fato porque a metalúrgica Eberle não existe mais, restou o edifício que muitos nem reparam. Porém o relógio sobreviveu. Ele representa simbolicamente a marca do seu tempo e o próprio tempo. O relógio é um símbolo de Caxias, um monumento e pode ser considerado, junto com o conjunto, um bem cultural material. Ele continua reproduzindo as badaladas – bem cultural imaterial – que ditavam e o tempo, os horários, as horas de jornada de trabalho, a hora de comer, a hora de dormir e que continuam no imaginário de quem viveu aquilo.
Se ele continua funcionando é porque ainda tem um significado. Em relação às iniciativas de preservação deste bem, o relógio me dá um alento porque me traz esperança. Ele me diz que de alguma maneira o edifício ainda pulsa, mesmo abandonado. E se pulsa é porque ainda tem algum resquício de vida. Podemos considerá-lo o coração do edifício?
O edifício da antiga Eberle necessita alguns choques elétricos culturais para reanimar e trazer o ritmo de volta, pontes de safena com parcerias, marcapassos com uma equipe de salvaguarda monitorando. As pessoas precisam correr nas suas veias novamente e livremente, em cada metro quadradro. Preservar e dar novos usos para reviver e seguir pulsando ao longo dos tempos.

TIC TAC TIC TAC

A força do tempo da metalúrgica Abramo Eberle é ainda muito influente. Alguns antigos funcionários, segundo relatos, continuam fazendo os mesmos horários de trabalho que cumpriam na firma, mesmo tendo saído de lá há muitos anos e mesmo a empresa não existindo mais.
E qual o Caxiense que não sente ao menos um pinguinho de culpa ao levantar um pouco mais tarde? Ao trabalhar um pouco menos?
E aqueles que fazem o contrário? Se vangloriam de trabalhar até a vigésima quinta hora, nos feriados e que acordam bem mais cedo do que os outros?
Agora os tempos são outros, ou pelo menos deveriam ser. Devemos relaxar mais, não se jogar tanto no trabalho, aproveitar mais a vida, conviver mais com a família e amigos, passear, ir ao cinema, ao teatro, ler, praticar esportes. Aos que não precisam levantar tão cedo, já diziam os Menudos –“no se reprima”.
Que o relógio sirva para sabermos a hora de parar de trabalhar para aproveitar a família, que sirva para nos ajudar a dividir as tarefas do dia-a-dia, a trazer equilíbrio.