quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

“O espaço, protagonista da arquitetura”



“Se pensarmos um pouco a respeito, o fato de o espaço, o vazio, ser o protagonista da arquitetura é, no fundo, natural, porque a arquitetura não é apenas arte nem só imagem de vida histórica ou de vida vivida por nós e pelos outros; é também, e sobretudo, o ambiente, a cena onde vivemos nossa vida” (Bruno Zevi)


A frase que intitula este post foi retirada de um capítulo do livro “Saber ver a arquitetura” de Bruno Zevi. “O espaço, protagonista da arquitetura” já diz em grande parte, o que seria, para ele a essência da arquitetura: o fazer, o projetar espaços para o habitar do homem. O autor afirma que o caráter essencial da arquitetura é o fato de que, ao agir com um vocabulário tridimensional, inclui o homem e isto a distingue das outras artes.
A arquitetura, portanto, transcende o fato de ser a construção de uma edificação com piso + paredes + cobertura. A arquitetura, diz Zevi, “não provém de um conjunto de larguras, comprimentos e alturas dos elementos construtivos que encerram o espaço, mas precisamente do vazio, do espaço encerrado, do espaço interior em que os homens andam e vivem”.
Nesse sentido, entende-se que pode estar no espaço, este vazio entre as paredes, o valor de uma arquitetura. O espaço, segundo Zevi, “é o protagonista do fato arquitetônico”.
            Guardo uma lembrança de infância, de um dia que estava na biblioteca da escola e, em um livro de história havia um capítulo sobre a história da arquitetura, com grandes catedrais o ilustrando. Naquele dia me questionei a razão de não estudarmos aquela matéria. E de fato, eu não me recordo de ter tido uma aula de arquitetura na escola. Acredito não ter sido a única.
            Existe uma dificuldade de compreendermos a arquitetura até por não conhecê-la. Na década de 80, quando Zevi publicou o livro, questionou e apontou um defeito quanto ao estudo da arquitetura na história da arte: o fato de os edifícios serem apreciados como grandes esculturas ou pinturas, como simples fenômenos plásticos. O autor considerava esta análise externa e superficial.
            Se somarmos a questão da deficiência do ensino da arquitetura na escola, com a questão da análise rasa e meramente estilística da arquitetura ensinada na história da arte, teremos como resultado um grande desafio: o caminho para evoluir a qualificação da arquitetura.
            É claro que, sendo o espaço a essência da arquitetura, não se deve dizer que o único valor de uma edificação se esgote no espaço interior.  Zevi ressalta a pluralidade de valores de uma edificação além da espacial: técnicos, funcionais, econômicos, sociais, artísticos, decorativos. Para o autor, a realidade de um edifício é a consequência de todos estes e que “uma história válida não pode esquecer nenhum deles”.
            E quando Zevi fala em história, logo me lembro da arquitetura referente ao patrimônio cultural. No momento em que é feito o inventário de um bem,  um parecer a seu respeito, ou mesmo a sua valoração, o quanto o espaço interior da edificação é levado em conta? Na hora da definição do que permanece e do que será demolido nessa arquitetura, está sendo feita a pergunta: -“Este bem tem valor arquitetônico espacial?”.
             Muitas vezes acontece de certa arquitetura ser demolida por não ser considerada com valor arquitetônico. Atribui-se, frequentemente a sua valoração, o fator estilístico. Ou então, seu valor como monumento ou símbolo numa escala urbana. Porém deixam de lado o espaço interior.
É frequente na prática das intervenções em edificações patrimoniais a manutenção da fachada do edifício, como uma casca e a construção de um edifício totalmente novo por dentro, ou fazendo parte de uma fachada antiga que convive com uma contemporânea. Nestes casos, qual seria o critério para a demolição da edificação – será que ela não teria o valor espacial no seu interior?
É importante ressaltar que na arquitetura, cada caso pode ser um caso.  Podemos ter edificações com uma bela fachada, com um volume proporcionado, mas pobre em espaço. Ou edificações com excelentes espaços, mas não tão boas esteticamente. Quando o julgamento sobre a qualidade do espaço e os elementos estilísticos for positivo, Zevi considera estarmos diante de uma obra íntegra e, portanto, que o julgamento da arquitetura perpassa pela sua concepção espacial. A qualidade espacial é que dá o “sim” ou o “não” nas sentenças estéticas.
Este texto buscou trazer a questão do valor do espaço na arquitetura para reflexão, com o objetivo de qualificar e ampliar o debate sobre  as práticas da arquitetura no patrimônio. Através da preservação do espaço interno de uma edificação, poderá se compreender talvez muito mais sobre as atividades humanas, as práticas sociais, as relações de trabalho e poder, os traços culturais, de uma sociedade, do que mantendo apenas o exterior do edifício.
 O espaço interior também não pode ser analisado e compreendido apenas como um meio para julgar ou valorar uma boa ou má arquitetura. Até porque o conceito de patrimônio hoje, denominado cultural, é formado pela cultura material e imaterial e, os bens culturais já não podem ser valorados apenas sob o ponto de vista do valor arquitetônico. Mas sim pelo significado que a comunidade lhe atribui, se fez parte da construção de sua identidade.
A reflexão sobre o que se deve preservar e o que demolir é complexa e envolve muitos fatores, tanto conceituais e teóricos, como vimos neste texto, quanto às questões do próprio crescimento da cidade. O patrimônio imaterial e o valor espacial ainda são incipientes no debate. Aliás, a preservação como um todo é ainda embrionária aqui no Brasil, se compararmos com a Europa, por exemplo, pelo nosso tempo de existência.
Estamos avançando estágios. Hoje talvez nos contentemos em preservar uma fachada ou parte de um edifício, mesmo sabendo que estamos perdendo preciosidades por “não possuírem valor arquitetônico”. Mas caminhamos para chegar lá: incorporar a dimensão imaterial nos bens culturais e preservar os símbolos destas representações.