| Croqui aquerelado que arrisquei fazer, na época do TCC |
O arquiteto tem essa “mania” de olhar, de
perceber sua cidade. Além de ser minha profissão eu tenho este “hobbie” de
observar a cidade. Ando muito a pé para observar estes mínimos detalhes.
A área do Cento de Cultura
Ordovás, que antigamente pertencia a Vinícola Luiz Antunes & Cia, faz parte da minha vida, seja para o trabalho, seja para o lazer. Em muitas destas
idas até lá, a área me chamou a atenção. Quando fui fazer meu tema do TCC,
em 2008, para a Faculdade, logo a escolhi, sem saber o que iria projetar para
ela. Apenas senti a necessidade de estudá-la.
Iniciei a monografia dizendo
que havia feito uma leitura à “primeira vista” do local, tal qual um músico
faz com uma partitura. Neste primeiro contato o músico reconhece algumas
características como métrica, dinâmica, contrastes, enfim, os elementos de
composição da obra, e que a torna única. Esta leitura da cidade fez
saltar aos meus olhos problemas que continuam até hoje, daí a necessidade de estudá-la.
Alguns destes problemas se referem a indefinições quanto aos espaços abertos
pouco frequentados, alguns edifícios (dos poucos que restaram), abandonados,
perda da área pública para parcelamentos e espaço viário.
O estudo da história da Vinícola
mostrou que grande parte do seu patrimônio havia sido demolida. Dos
dois conjuntos de pavilhões que ficavam um a cada lado de uma viela, sobraram três
edifícios do lado direito: a UAB, o Antigo Albergue Municipal que será a
Casa das Etnias, e um edifício em ruína no meio. O Ordovás e o Teatro
permaneceram, bem como uma ruína de uma antiga vinagreira, a chaminé, uma ruína
de caixa d’água. E é claro, o pórtico da Antiga Vinícola.
O pórtico, em estilo Art
Decó, apresentava base e corpo executados em pedra basalto e o coroamento em
alvenaria rebocada. Possuía frisos e letras em relevo, característicos do
estilo. Das reminiscências, a que mais representava a antiga Vinícola era o
pórtico.
Vocês notaram que me referi
ao pórtico no passado?
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| Crédito: Paulo Pasa, Jornal O Caxiense |
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| Crédito: Roni Rigon, Jornal O Pioneiro |
Fatalmente na manhã do dia
06 de novembro, um caminhão guincho, com altura fora da norma, tentou passar por ele, e o tombou.
É claro que fiquei muito
triste por vários fatores: era patrimônio histórico da cidade, era o que melhor
representava antiga Vinícola Antunes. Mas não só esta vinícola, como todas as
outras que também estão sendo ou já foram “derrubadas”, mas por outro guincho: o guincho da
especulação imobiliária, o guincho da falta de visão de preservar a história, o
guincho da ganância, do descaso, do descuido. Existem bens culturais materiais
que estão sendo cuidados em Caxias do Sul. Mas outros, necessitam nosso olhar
com atenção: o Prédio da Antiga Eberle, por exemplo. E o da MAESA, que se não
cuidarmos, será demolido e transformado em vários prédios.
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| http://biblioteca.ibge.gov.br/colecao_digital_fotografias.php?this_pag=5&palavra_chave=Ic%F3 |
O fato do caminhão ter botado à baixo nossa história foi escancarado e imediato, visível, chocante, uma morte súbita.
Aquelas perdas mais inesperadas e dolorosas de superar. Mas existem outros
descuidos, velados, por de baixo dos panos. Há muitos proprietários trafegando
diariamente com o seu caminhão-guincho fora da norma. Mas este descuido não é
tão perceptível aos nossos olhos. Esta destruição é lenta, disfarçada, o bem
vai se deteriorando até cair, sem projeto, sem restauração, sem manutenção, sem
conservação... o tempo vai agindo lentamente, o bem vai decaindo... até virar
ruína. Então chega a hora do objetivo final: a demolição. Mas ai já estamos
acostumados, ou conformados que aquele bem vai chegar ao seu fim, como um
doente terminal. Acabamos não sofreremos tanto. Acomodamos.
Tomemos este “tombamento” do
pórtico da Antiga Vinícola Antunes como aprendizado. Por mais que muitos cuidem do patrimônio, como
por exemplo a nova Lei, sancionada pelo prefeito, por ironia do destino, no
mesmo dia da destruição do antigo pórtico, ainda há muito a ser feito. E nós
cidadãos temos que cuidar dos bens e exigir que eles sejam cuidados. Este é o
sentido da preservação.
E o que fazer agora? Reconstruir?
Há a necessidade de fazer uma avaliação para ver se é possível a reconstrução.
Sem falso histórico. Não estou por dentro do estado dos escombros para emitir
uma opinião. É necessário que profissionais especializados avaliem e proponham
a forma que acharem mais adequada. Mas sei que o pórtico deve continuar um
elemento daquele lugar, para continuar a história. A lacuna do pórtico deve ser
preenchida.
Referências foto: http://biblioteca.ibge.gov.br/colecao_digital_fotografias.php?this_pag=5&palavra_chave=Ic%F3



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