quarta-feira, 7 de novembro de 2012

"TOMBAMENTO" DO PÓRTICO DA ANTIGA VINÍCOLA ANTUNES: UM ALERTA




Croqui aquerelado que arrisquei fazer, na época do TCC

O arquiteto tem essa “mania” de olhar, de perceber sua cidade. Além de ser minha profissão eu tenho este “hobbie” de observar a cidade. Ando muito a pé para observar estes mínimos detalhes.
A área do Cento de Cultura Ordovás, que antigamente pertencia a Vinícola Luiz Antunes & Cia, faz parte da minha vida, seja para o trabalho, seja para o lazer. Em muitas destas idas até lá, a área me chamou a atenção. Quando fui fazer meu tema do TCC, em 2008, para a Faculdade, logo a escolhi, sem saber o que iria projetar para ela. Apenas senti a necessidade de estudá-la.
Iniciei a monografia dizendo que havia feito uma leitura à “primeira vista” do local, tal qual um músico faz com uma partitura. Neste primeiro contato o músico reconhece algumas características como métrica, dinâmica, contrastes, enfim, os elementos de composição da obra, e que a torna única. Esta leitura da cidade fez saltar aos meus olhos problemas que continuam até hoje, daí a necessidade de estudá-la. Alguns destes problemas se referem a indefinições quanto aos espaços abertos pouco frequentados, alguns edifícios (dos poucos que restaram), abandonados, perda da área pública para parcelamentos e espaço viário.
O estudo da história da Vinícola mostrou que grande parte do seu patrimônio havia sido demolida. Dos dois conjuntos de pavilhões que ficavam um a cada lado de uma viela, sobraram três edifícios do lado direito: a UAB, o Antigo Albergue Municipal que será a Casa das Etnias, e um edifício em ruína no meio. O Ordovás e o Teatro permaneceram, bem como uma ruína de uma antiga vinagreira, a chaminé, uma ruína de caixa d’água. E é claro, o pórtico da Antiga Vinícola.
O pórtico, em estilo Art Decó, apresentava base e corpo executados em pedra basalto e o coroamento em alvenaria rebocada. Possuía frisos e letras em relevo, característicos do estilo. Das reminiscências, a que mais representava a antiga Vinícola era o pórtico.

Vocês notaram que me referi ao pórtico no passado?


Crédito: Paulo Pasa, Jornal O Caxiense

Crédito: Roni Rigon, Jornal O Pioneiro

Fatalmente na manhã do dia 06 de novembro, um caminhão guincho, com altura fora da norma, tentou passar por ele, e o tombou.
É claro que fiquei muito triste por vários fatores: era patrimônio histórico da cidade, era o que melhor representava antiga Vinícola Antunes. Mas não só esta vinícola, como todas as outras que também estão sendo ou já foram “derrubadas”, mas por outro guincho: o guincho da especulação imobiliária, o guincho da falta de visão de preservar a história, o guincho da ganância, do descaso, do descuido. Existem bens culturais materiais que estão sendo cuidados em Caxias do Sul. Mas outros, necessitam nosso olhar com atenção: o Prédio da Antiga Eberle, por exemplo. E o da MAESA, que se não cuidarmos, será demolido e transformado em vários prédios.


http://biblioteca.ibge.gov.br/colecao_digital_fotografias.php?this_pag=5&palavra_chave=Ic%F3


O fato do caminhão  ter botado à baixo nossa história foi escancarado e imediato, visível, chocante, uma morte súbita. Aquelas perdas mais inesperadas e dolorosas de superar. Mas existem outros descuidos, velados, por de baixo dos panos. Há muitos proprietários trafegando diariamente com o seu caminhão-guincho fora da norma. Mas este descuido não é tão perceptível aos nossos olhos. Esta destruição é lenta, disfarçada, o bem vai se deteriorando até cair, sem projeto, sem restauração, sem manutenção, sem conservação... o tempo vai agindo lentamente, o bem vai decaindo... até virar ruína. Então chega a hora do objetivo final: a demolição. Mas ai já estamos acostumados, ou conformados que aquele bem vai chegar ao seu fim, como um doente terminal. Acabamos não sofreremos tanto. Acomodamos.
Tomemos este “tombamento” do pórtico da Antiga Vinícola Antunes como aprendizado.  Por mais que muitos cuidem do patrimônio, como por exemplo a nova Lei, sancionada pelo prefeito, por ironia do destino, no mesmo dia da destruição do antigo pórtico, ainda há muito a ser feito. E nós cidadãos temos que cuidar dos bens e exigir que eles sejam cuidados. Este é o sentido da preservação.
E o que fazer agora? Reconstruir? Há a necessidade de fazer uma avaliação para ver se é possível a reconstrução. Sem falso histórico. Não estou por dentro do estado dos escombros para emitir uma opinião. É necessário que profissionais especializados avaliem e proponham a forma que acharem mais adequada. Mas sei que o pórtico deve continuar um elemento daquele lugar, para continuar a história. A lacuna do pórtico deve ser preenchida.


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