“Se
pensarmos um pouco a respeito, o fato de o espaço, o vazio, ser o protagonista
da arquitetura é, no fundo, natural, porque a arquitetura não é apenas arte nem
só imagem de vida histórica ou de vida vivida por nós e pelos outros; é também,
e sobretudo, o ambiente, a cena onde vivemos nossa vida” (Bruno Zevi)
A
frase que intitula este post foi retirada de um capítulo do livro “Saber ver a
arquitetura” de Bruno Zevi. “O espaço, protagonista da arquitetura” já diz em
grande parte, o que seria, para ele a essência da arquitetura: o fazer, o projetar
espaços para o habitar do homem. O autor afirma que o caráter essencial da
arquitetura é o fato de que, ao agir com um vocabulário tridimensional, inclui
o homem e isto a distingue das outras artes.
A
arquitetura, portanto, transcende o fato de ser a construção de uma edificação
com piso + paredes + cobertura. A arquitetura, diz Zevi, “não provém de um conjunto
de larguras, comprimentos e alturas dos elementos construtivos que encerram o
espaço, mas precisamente do vazio, do espaço encerrado, do espaço interior em
que os homens andam e vivem”.
Nesse
sentido, entende-se que pode estar no espaço, este vazio entre as paredes, o
valor de uma arquitetura. O espaço, segundo Zevi, “é o protagonista do fato
arquitetônico”.
Guardo uma lembrança de infância, de
um dia que estava na biblioteca da escola e, em um livro de história havia um
capítulo sobre a história da arquitetura, com grandes catedrais o ilustrando.
Naquele dia me questionei a razão de não estudarmos aquela matéria. E de fato,
eu não me recordo de ter tido uma aula de arquitetura na escola. Acredito não
ter sido a única.
Existe uma dificuldade de
compreendermos a arquitetura até por não conhecê-la. Na década de 80, quando
Zevi publicou o livro, questionou e apontou um defeito quanto ao estudo da
arquitetura na história da arte: o fato de os edifícios serem apreciados como
grandes esculturas ou pinturas, como simples fenômenos plásticos. O autor
considerava esta análise externa e superficial.
Se somarmos a questão da deficiência
do ensino da arquitetura na escola, com a questão da análise rasa e meramente estilística
da arquitetura ensinada na história da arte, teremos como resultado um grande desafio:
o caminho para evoluir a qualificação da arquitetura.
É claro que, sendo o espaço a
essência da arquitetura, não se deve dizer que o único valor de uma edificação se
esgote no espaço interior. Zevi ressalta
a pluralidade de valores de uma edificação além da espacial: técnicos, funcionais,
econômicos, sociais, artísticos, decorativos. Para o autor, a realidade de um
edifício é a consequência de todos estes e que “uma história válida não pode
esquecer nenhum deles”.
E quando Zevi fala em história, logo
me lembro da arquitetura referente ao patrimônio cultural. No momento em que é
feito o inventário de um bem, um parecer
a seu respeito, ou mesmo a sua valoração, o quanto o espaço interior da
edificação é levado em conta? Na hora da definição do que permanece e do que
será demolido nessa arquitetura, está sendo feita a pergunta: -“Este bem tem
valor arquitetônico espacial?”.
Muitas vezes acontece de certa arquitetura ser
demolida por não ser considerada com valor arquitetônico. Atribui-se,
frequentemente a sua valoração, o fator estilístico. Ou então, seu valor como
monumento ou símbolo numa escala urbana. Porém deixam de lado o espaço
interior.
É
frequente na prática das intervenções em edificações patrimoniais a manutenção
da fachada do edifício, como uma casca e a construção de um edifício totalmente
novo por dentro, ou fazendo parte de uma fachada antiga que convive com uma
contemporânea. Nestes casos, qual seria o critério para a demolição da
edificação – será que ela não teria o valor espacial no seu interior?
É
importante ressaltar que na arquitetura, cada caso pode ser um caso. Podemos ter edificações com uma bela fachada,
com um volume proporcionado, mas pobre em espaço. Ou edificações com excelentes
espaços, mas não tão boas esteticamente. Quando o julgamento sobre a qualidade
do espaço e os elementos estilísticos for positivo, Zevi considera estarmos
diante de uma obra íntegra e, portanto, que o julgamento da arquitetura
perpassa pela sua concepção espacial. A qualidade espacial é que dá o “sim” ou
o “não” nas sentenças estéticas.
Este
texto buscou trazer a questão do valor do espaço na arquitetura para reflexão, com
o objetivo de qualificar e ampliar o debate sobre as práticas da arquitetura no patrimônio. Através
da preservação do espaço interno de uma edificação, poderá se compreender talvez
muito mais sobre as atividades humanas, as práticas sociais, as relações de
trabalho e poder, os traços culturais, de uma sociedade, do que mantendo apenas
o exterior do edifício.
O espaço interior também não pode ser analisado
e compreendido apenas como um meio para julgar ou valorar uma boa ou má
arquitetura. Até porque o conceito de patrimônio hoje, denominado cultural, é formado
pela cultura material e imaterial e, os bens culturais já não podem ser valorados
apenas sob o ponto de vista do valor arquitetônico. Mas sim pelo significado
que a comunidade lhe atribui, se fez parte da construção de sua identidade.
A
reflexão sobre o que se deve preservar e o que demolir é complexa e envolve muitos
fatores, tanto conceituais e teóricos, como vimos neste texto, quanto às
questões do próprio crescimento da cidade. O patrimônio imaterial e o valor
espacial ainda são incipientes no debate. Aliás, a preservação como um todo é
ainda embrionária aqui no Brasil, se compararmos com a Europa, por exemplo,
pelo nosso tempo de existência.
Estamos
avançando estágios. Hoje talvez nos contentemos em preservar uma fachada ou
parte de um edifício, mesmo sabendo que estamos perdendo preciosidades por “não
possuírem valor arquitetônico”. Mas caminhamos para chegar lá: incorporar a dimensão
imaterial nos bens culturais e preservar os símbolos destas representações.
Brava!!! Brava!! Brava!!! Texto de muito valor. Sugiro publicá-lo como artigo também para fins didáticos.
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