Minha história com os relógios de Caxias não terminou. E acredito que não terminará tão cedo enquanto ambos existirmos. É natural numa cidade com fortes características industriais como a nossa, termos relógios espalhados e em monumentos, ditando nosso ritmo, como no caso da igreja São Pelegrino.
Mas o fato que vou contar em seguida foi um momento onde a magia aconteceu e eu estava sentada em um banco da praça Dante Alighieri, minutos antes do meio-dia, em um dia da semana.
Não, eu não estava alimentando pombos. Estava ali, estrategicamente em frente à Catedral, para analisar o cenário para o próximo desfile da Festa da Uva, que terminará na praça, com um grand finale.
Ao meio-dia o sino começou a soar. Era um lindo som. São raros os dias que me encontro no centro neste horário e, portanto, me senti num momento especial, de pura poesia. Desfrutei daquilo apreciando o cenário urbano com trilha sonora, até que as badaladas foram ficando mais baixas e mais esparsas como se estivessem se distanciando em direção ao infinito. Eu estava em êxtase aguardando o silenciar para me levantar e almoçar (afinal havia marcado a hora do almoço).
Instantes depois fui pega de surpresa. Ao final do soar do sino da catedral, surgiu um pulso marcante, um badalar forte e com personalidade. O som vinha da minha esquerda. Os dois sons se cruzaram por uns instantes, como numa polifonia, mas ao final ressoou apenas uma das vozes, esta menos melodiosa, menos reverberante, mais ríspida. Foram doze badaladas. E só. Havia se manifestado o relógio da indústria, o som vinha do relógio do edifício onde funcionava a Metalúrgica Abramo Eberle.
Ao ouvir esta sequência quase musical, me questionei se esta seria mais uma das coincidências da vida. Os relógios da Catedral e da antiga Eberle pareciam estar sendo regidos por um maestro. Quando uma melodia estava piano e sumindo, ele deu a entrada para a outra forte. Nos tempos exatos.
Após refletir e compartilhar esta história numa aula da especialização em Bens Culturais que estou fazendo, chegamos à conclusão de que não tenha sido ocasional este arranjo tocado pelo sino e relógio. Não voltei mais lá ao meio-dia para verificar se o mesmo aconteceria. Mas seria estranho os dois soarem ao mesmo tempo. Parece ter havido uma hierarquia nas manifestações – primeiro o da igreja, e depois o do que foi uma das maiores e mais influentes indústrias da história de Caxias.
Hoje o edifício encontra-se parcialmente utilizado pela FAI – Faculdade dos Imigrantes, por um estacionamento e por uma loja de brinquedos. Parte encontra-se em desuso.
Este edifício por muito tempo ficou fechado, em desuso, abandonado. Não estou certa, mas arrisco dizer aqui que talvez tenha um elemento que não parou de funcionar durante todo este tempo: o relógio.
É interessante ressaltar este fato porque a metalúrgica Eberle não existe mais, restou o edifício que muitos nem reparam. Porém o relógio sobreviveu. Ele representa simbolicamente a marca do seu tempo e o próprio tempo. O relógio é um símbolo de Caxias, um monumento e pode ser considerado, junto com o conjunto, um bem cultural material. Ele continua reproduzindo as badaladas – bem cultural imaterial – que ditavam e o tempo, os horários, as horas de jornada de trabalho, a hora de comer, a hora de dormir e que continuam no imaginário de quem viveu aquilo.
Se ele continua funcionando é porque ainda tem um significado. Em relação às iniciativas de preservação deste bem, o relógio me dá um alento porque me traz esperança. Ele me diz que de alguma maneira o edifício ainda pulsa, mesmo abandonado. E se pulsa é porque ainda tem algum resquício de vida. Podemos considerá-lo o coração do edifício?
O edifício da antiga Eberle necessita alguns choques elétricos culturais para reanimar e trazer o ritmo de volta, pontes de safena com parcerias, marcapassos com uma equipe de salvaguarda monitorando. As pessoas precisam correr nas suas veias novamente e livremente, em cada metro quadradro. Preservar e dar novos usos para reviver e seguir pulsando ao longo dos tempos.
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