Neste momento, estou na sala da minha casa, prestes a escrever uma nova postagem neste blog. Abro o documento em branco e entre um pensamento e outro escuto as badaladas das dez da noite, do relógio da Igreja de São Pelegrino.
As badaladas dos relógios são marcantes no cotidiano de uma cidade e também no imaginário da gente. Os toques e badaladas dão o ritmo, o pulso, marcam o início e o final de um dia de trabalho, a hora de acordar, de dormir, no caso da igreja de cultuar e rezar, mesmo que as pessoas talvez já não o sigam mais tanto.
Quando morava no Bairro Rio Branco, na subida da Tronca, onde era o antigo bairro lusitano, sabe? Não? Não sabe? Perto do Juventus... Bom, a história do antigo Bairro Lusitano fica para uma próxima postagem. Mas enfim, ouvia a Ave Maria de Gounod tocar às 18:00h, sempre que estava em casa e que o vento trazia a melodia para perto.
Hoje, morando em São Pelegrino, logo nas manhãs acordo, algumas poucas vezes com a Igreja, mas logo dou bom dia a ela. Tenho uma visão privilegiada da janela da minha cozinha. Logo, olho o seu relógio e começo a contar as horas, vou ao banho e cronometro o meu tempo pelo toque dos quinze minutos. Embora muitos não escutem, ele toca de quinze em quinze minutos e nas horas cheias, badala. O toque da missa também é diferente e, diga-se de passagem, tem o poder de um imã, ele chama mesmo. Praticamente convoca. Pois é, o relógio, este senhor do tempo, me avisa se estou muito demorada em baixo d’água, se o tempo de infusão do meu chá ultrapassou, se estou atrasada.
Demorei em me acostumar com o ritmo deste tic-tac. Aliás, o som é mais parecido com “blém-blém-blém”. Havia muito tempo não usava mais relógio, a não ser aquela olhadinha no celular ou o despertador, e o toque de quinze em quinze minutos me parecia frenético. Era muito chato este som avisando que o tempo passou, esta passando, a vida passa e passa.
Houve um dia em que ocorreu um episódio engraçado. Eu estava deitada no sofá, curtindo um ócio, e o relógio a milhão tocando os quinze direto e quando deu uma badalada – e naquele dia parecia ainda mais forte – eu comentei: –“Mas, "jogá" uma bomba nesse relógio é pouco!”
No dia seguinte, dei bom dia ao relógio da igreja, como de costume, e ele me disse – “Ana Lia, 09:40h”. Minutos depois, saí. Para chegar ao meu destino, tinha que passar pela Avenida Rio Branco, e é claro, dei aquela olhadinha pra cima e de repente, percebi que havia algo errado. O relógio continuava marcando 09:40h. Pensei: -“esse relógio está estragado”.
Juro que não foi praga, a vida é mesmo feita de coincidências. E vocês hão de convir comigo que seria muita prepotência achar que, justo uma praga minha, ao relógio da Igreja, iria surtir algum efeito!
Os dias sem os toques foram estranhos, confesso que, embora de início estivesse incomodada, passei a sentir falta. Com o relógio parado, perdi o da minha cozinha, e este, para arrumar não seria simplesmente espichar o braço, retirá-lo da parede e trocar sua pilha. Tive que controlar o tempo de cozimento do meu feijão no microondas – funcional, mas menos romântico.
O relógio da Igreja ficou alguns dias sem o ponteiro, uma imagem muito inusitada. Muitos e muitos turistas tiraram fotografias e levaram a recordação deste monumento com um pequeno, porém não menos significativo desfalque. Foi necessário o braço de um guindaste para retirar e colocar os ponteiros. Fotografei tudo.
Fiquei meio perdida por não ter mais um certo controle sobre o tempo. O que antes criticava e por isso não usava relógio, agora me estava fazendo falta. Muitos dos que vivem e convivem em São Pelegrino sentiram o mesmo. Uns achavam melhor e outros pior.
Busco diariamente, encontrar uma forma de me relacionar com o pulso do relógio, de uma maneira equilibrada. O utilizo para me ajudar a organizar o dia, sem me submeter a ele, se não quiser. Nem sempre acordo com ele, muitas vezes vou dormir muito mais tarde, mas às vezes vou à missa, quando dá vontade. Continuo tendo rompantes de amor e ódio em relação às badaladas, mas não deixo de me comover, às dezoito horas, com a Ave Maria.
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