sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O cenário de "O Fauno"

        Estreou em Caxias do Sul, na sede do Teatro do Encontro, no dia 29 de outubro a peça "O Fauno", de direção de Ana Fuchs, um monólogo com o ator Márcio Ramos. Fui convidada pela diretora no ano passado para participar do projeto fazendo a cenografia da peça.  


     A cenografia da peça foi criada com o objetivo de contribuir com a construção e ações cênicas do personagens. O personagem fala sobre as escolhas da vida e no texto isto é representado através dos fios da vida. 
     Conceitualmente o fio foi o elemento escolhido para a materialização do cenário e buscou-se explorar as possibilidades destes. Uma espécie de caverna foi o lugar pensado para representar o local onde o personagem e a platéia se encontrariam naquele momento: se encaminhando para a "terra dos mortos", onde mais tarde, teriam de escolher seu caminho, o limbo, o inferno ou o paraíso.
         A organicidade da caverna é atemporal e se encaixa com a atmosfera desejada. A peça é interessante pois pode ser apresentada em locais alternativos e os fios podem se moldar a eles.  Os fios foram todos doados pelo Banco de Vestuário de Caxias do Sul, que doou retalhos também para fazer cultura.
     A montagem para a estréia durou aproximadamente quatro dias e considerei praticamente uma instalação artística. Havia vários tipos de fio, e cada um foi trabalhado plasticamente com o que poderia oferecer. Havia retalhos de tecido cortados em tira, que foram sendo emendados, criando as formas da caverna. Algumas formavam espécie de estalactites estalagmites, que pendiam do teto. Outro tipo era uma espécie de estopa, também retalho, que foi sendo aberta e disposta de modo a formar espécies de teias de aranha. Também foi utilizado barbante.
     A "tesoura das moiras" também foi confeccionada com barbante na parte do cabo, com um resultado bem rústico, na mesma linguagem do cenário.
      
      Após a estréia houve um debate com o público, este deu bons retornos para a equipe, contribuindo para atingir outro objetivo da peça, que é ir mudando, se aperfeiçoando.







       A peça também recebeu a crítica de Marcelo Aramis, do "O Caxiense", que foi um ótimo retorno. A crítica é importante para sempre buscarmos o crescimento. Na parte da cenografia, sua interpretação captou a intenção da criação, que era a interação com o personagem. Fiquei satisfeita com sua constatação pois é um sinal de que o trabalho deu certo. A cenografia deve fazer parte, caso contrário, torna-se obsoleta ou meramente decorativa.  Confira abaixo a crítica:
     
      Me senti muito feliz com a realização deste trabalho, o resultado me agradou muito e foi fruto de um trabalho feito em conjunto com toda a equipe técnica. 
     Agradeço a toda a equipe pela oportunidade e também à arquiteta Priscila Gianne pela colaboração na confecção de adereços cênicos e montagem da peça na estréia.
 
      Um abraço!


                                  Márcio Ramos, Priscila Gianne, Ana Lia Branchi, Ana Fuchs

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O “Dia Mundial Sem Carro”



Como uma faísca atrasada, venho comentar no blog o “Dia Mundial Sem Carro”, que ocorreu neste dia 22 de setembro e mobilizou pessoas e cidades do mundo inteiro. E não fez nem cócegas em outras.
É uma boa iniciativa, devagar e sempre se chega lá, dizemos! Tem o objetivo de conscientizar as pessoas a deixar o carro em casa, utilizando o transporte coletivo, os meios não motorizados, como a bicicleta, iniciando a incorporar no cotidiano os conceitos do transporte e mobilidade sustentável. Estamos num processo muito incipiente aqui em Caxias, a campanha chegou um pouco mais tarde que em outros lugares. Faísca atrasada, como eu, neste caso. Veloz e “de vento em popa” andam  as vendas de carro, que aumentam anualmente!!!
Mas como, dizem também que nunca é tarde para começar, fico feliz que já se esteja falando disto em Caxias e é por esta razão que decidi escrever este texto.
Com a temática do transporte sustentável, do “Dia Mundial sem Carro”, do uso da bicicleta como meio de transporte, me familiarizei quando fui estagiária da Secretaria do Planejamento de Caxias do Sul, em 2006. Ali, desenvolvi minha monografia de estágio com a temática inserção da bicicleta como meio de transporte em Caxias do Sul, assunto, até então, pouco abordado no meio acadêmico, recém iniciado como política pública nacional e ainda engatinhando nas mídias.
A partir de então, e ainda estudante, comecei a colocar em prática alguns destes conceitos: andava muito a pé, usava transporte coletivo, muitas vezes fui ao trabalho de bicicleta – sentindo na pele os problemas enfrentados pelos usuários.
Na verdade o “Dia Mundial sem Carro” deveria ser todo o dia. Sem radicalismos, claro. A chave seria utilizarmos o carro no estritamente necessário. Mas para isso, teríamos que ter opção de transporte.
Aqui em Caxias, dependendo da linha ou do itinerário o transporte torna-se limitado, oneroso. Dependendo o deslocamento, o carro ainda é mais econômico. E falo isto com conhecimento de causa, pois já cheguei a fazer anotações sobre itinerários, demoras, etc., a cada viagem que fazia. Tipo um diário de bordo. Mas um dia chegamos lá! Eu acredito!
Hoje, já formada, fica difícil praticar os preceitos do “Dia Mundial Sem Carro” como gostaria. Na profissão do arquiteto, o carro é “uma mal necessário”, pois temos que ir a diversos lugares em um período curto de tempo, ir a obras, clientes, lojas, reuniões, o que levaria horas perdidas e gastos com taxi e ônibus, o que torna praticamente inviável. Compenso de outras formas: optei por morar ao lado do trabalho para evitar estes deslocamentos.

As aventuras da “arquiteta descalça”


Não pense que porque o carro é quase indispensável na profissão eu não tenha andado a pé. E ainda ando, muito! Uso bastante também o transporte coletivo.
Quando dá tempo, e tenho que ir somente a um lugar e voltar para o escritório, vou de carona e volto a pé, vou de ônibus, pego um taxi e assim vou. Sempre busco o equilíbrio. Quando tenho que usar o carro, não tem jeito. E pronto.
Nem sempre isto foi uma opção. Muitas vezes tive que fazer isto pela ausência de uma carro. Hoje, ainda divido carro com a família e muitas vezes “me pego sem!”. Me sinto descalça!!!  Embora prefira a sensação de liberdade de estar a pé, sinto falta do aprisionamento do carro.
Muitas vezes fui à obras de taxi. E estas idas me fizeram vivenciar muitas histórias estranhas e engraçadas.
Certa vez, cheguei de taxi na obra e o mestre grita lá de dentro: -“Oh, Ana, quando é que tu vai comprá um cavalo?”
Em outra obra, vivenciei quase um drama (tá estou exagerando um pouco!) que hoje dou risada, mas já fiquei presa numa obra por estar a pé. Explico: peguei um ônibus até a obra, cheguei e avisei o mestre que o esperaria lá encima para conversarmos. Enquanto ele não vinha, fui tirando umas medidas. Como não queria perder tempo, me concentrei demais no trabalho, e quando me dei por conta, estava um silêncio na obra. Desconfiei, mas continuei medindo e esperando pelo mestre, já que havíamos combinado de conversar e ele não me deixaria na mão.
De repente escutei o soar do alarme. Então me dei conta do que estava acontecendo, eles já tinham ido e estavam fechando a obra. Detalhe, numa sexta final da tarde. Talvez alguém viesse me buscar na segunda!
Bom, saí correndo, quase caí no vão da escada, quase me matei, na verdade. Chamei pelo mestre. Quando cheguei na porta, ela estava fechada. Sei que olhei para o tapume, esta superfície cinza e rústica e apenas um elementinho se movia neste mar de estanqueidade: o piscar dos seus olhos atrás do buraco da corrente. Foi quando vi que Gilmar tinha me encontrado. Me disse: -“Guenta ai que vou te tirar”. Mas.. por que tirar? Seria isto um resgate? Porque ele já tinha trancado o cadeado e a chave ficava com a segurança.
Não sei como Gilmar entrou na obra. Pegou uma escada e colocou ela no muro de divisa, para o terreno fora. O detalhe é que para eu acessar o muro e descer a escada, tinha que dar um passo da laje onde estava para o mesmo, cruzando um precipício de aproximadamente três metros. Além de dar o passo, tive que dar meia volta em 25cm de muro – quase uma corda bamba- para descer a escada de ré. Minha única segurança era meu equilíbrio e a mão de Gilmar, que também estava em pé,  de equilibrista.
Após descer e agradecer aos céus por ter chegado viva ao chão, no terreno do vizinho, perguntei ao mestre se ele já tinha assistido ao filme “Esqueceram de Mim”. Ele me respondeu que desceu, olhou a redondeza, viu que não tinha nenhum carro, e achou que eu tivesse ido embora!!! Vê se pode!!! 
No final da história, ele propôs a combinação de que eu poderia ir na obra sempre que pudesse nos finais de tarde que ele me daria uma carona de volta até São Pelegrino. Acabei fazendo amizade com ele e vivendo histórias do cotidiano que a redoma individual chamada automóvel talvez não me permitisse.


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

TROCA DE FIGURINHAS


Compartilho no blog a minha participação na  Coluna Ciranda de Raulino Prezzi, com o "Troca de Figurinhas". Confira!!!!

                                           

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

"Tudo o que a gente faz é um pedacinho de cidade"

        No mês de agosto, aqui em Caxias, pude prestigiar as palestras de dois importantes arquitetos brasileiros, Marcelo Ferraz e Ruy Ohtake.
            A primeira palestra, do Ferraz, aconteceu no Campus 8 da Universidade de Caxias do Sul e fez parte do 1º Congresso Nacional de Arquitetura. Seu título era “Esquecer para lembrar”. A princípio pareceu um pouco confuso, até mesmo um enigma a ser decifrado. Fiquei me perguntando:-“Como assim? Esquecer para lembrar? O que isto quer dizer?”
            “Esquecer para lembrar” está relacionado com a temática do patrimônio. O arquiteto abordou conceitos complexos de forma simples sobre como podemos intervir em áreas e edificações históricas. Segundo ele, esta expressão tem haver com as escolhas que o arquiteto tem de fazer diariamente e que estas interferem na vida das pessoas: é a responsabilidade civil deste profissional.
            Em termos práticos, quando nos deparamos com um bem material, temos que nos posicionar e fazer o juízo de valor sobre ele. No projeto de arquitetura, o que fica? O sai?
Muitas vezes pode-se valorizar um patrimônio, retirando-se uma parte e colocando uma nova que adapte a obra aos dias atuais, que a resignifique para a comunidade. Demolir uma parte do antigo para colocar o novo pode ser polêmico e muitos podem não aceitar. Por outro lado, podemos pensar que lembraremos muito mais do bem e das histórias relacionadas à ele, se ele tiver um novo significado. Esquecer para lembrar... a pergunta foi lançada pelo arquiteto:-“O que seria da memória sem o esquecimento?”
            Esta postura frente ao patrimônio me parece muito adequada à contemporaneidade, mas ainda não está incorporada pela maioria, gerando ainda polêmicas. Ferraz analisou bem o panorama de hoje: de um lado os preservacionistas; de outro, os demolidores. Disse que não deveríamos ficar neste padrão. E porque não encontrarmos um equilíbrio?
            Para combater esta dualidade e encontrar o ponto médio entre demolir ou preservar, propôs ações em duas pontas, sendo a primeira, formação e educação, e a segunda, experimentação controlada. Criando esta “massa crítica”, vislumbrou a possibilidade de que, um dia, não precisemos de órgãos de preservação para manter nosso patrimônio.
            O patrimônio edificado deve ser preservado, porém não pode virar empecilho. Também não pode ficar abandonado ou ser demolido. A cidade deve se refazer, não podemos congelá-la. A arquitetura deve estar a serviço das necessidades do homem. Tendo em vista estes condicionantes, o trabalho do arquiteto pode contribuir para encontrar este equilíbrio entre demolir e preservar.  Temos que lembrar que o planejamento urbano através do plano diretor, pode regrar isto. Sabemos que, em muitos casos, a preservação do patrimônio e o plano diretor não andam juntos. Fica este assunto como “cenas do próximo capítulo”.
            Ferraz apresentou alguns projetos, somente museus. Aquela arquitetura “desceu redondo”, assim como a palestra inteira. Os projetos mostravam as teorias que recém havia comentado.  No início da palestra o arquiteto disse que carecemos de conversa. Disse que a arquitetura deve ser “conversável”, que tenha significado e     que toque o coração das pessoas. Ao final percebi claramente isto que queria dizer. Os projetos conversaram, deixaram claro seu significado e tocaram o coração. Não preciso dizer que sou sua fã, né? O tenho como referência na minha trajetória profissional, só não digo guru para não parecer fundamentalista.
            Bom, isto que não fui visitar nenhuma de suas obras. Espero que, quando isto acontecer, a experiência se torne completa. Ruy Ohtake, na sua palestra, disse que entende por arquitetura aquela que foi construída. E realmente, a experiência de um indivíduo com a arquitetura pressupõe o seu percurso dentro e fora dela. É o que Bruno Zevi e “Saber ver a arquitetura” denomina de a quarta dimensão da arquitetura.
            Ohtake mostrou muitos de seus projetos, mas gostei do que falou sobre a questão de seguirmos nossa intuição. Se tivermos a intuição de uma forma, não ignorá-la, mas trabalhá-la para que possa ser empregada no projeto. No hotel Unique, ele teve a inspiração de uma forma que lembrava um semicírculo e esta se repetiu tanto na forma do edifício, como na planta.
            Dentre todos os conceitos e projetos abordados tanto pelo Ferraz como pelo Ohtake, ambos os arquitetos mencionaram a questão do convencimento. O Ferraz falou sobre a questão do arquiteto atuante, em que este possa perceber os problemas e potenciais de áreas da cidade e faça propostas às prefeituras ou iniciativa privada para fazer acontecer o projeto. Isto nem sempre sai “de primeira”, o processo pode demorar anos, gestões de prefeituras e etc. Disse, então, que este trabalho é um “eterno convencimento”. Ohtake contou um episódio em que convenceu os donos de um empreendimento a fazer as sacadas do prédio em curvas, uma diferente da outra, mesmo que isto tivesse um custo muito mais elevado. Conseguiu isto, pelo fato de ter convencido que a forma do edifício agregava maior valor ao empreendimento.
            As visitas destes dois arquitetos foram importantes e inspiradoras para a prática da arquitetura em Caxias. Para tecermos os “pedacinhos de cidade”, como disse o Ferraz, atuando em diversas escalas, envolvendo o patrimônio, ou não, faz-se necessário o aprimoramento do conhecimento. O enriquecimento do repertório arquitetônico e das vivências fazem com que o projeto, este “transformador de realidade”, fique cada vez com mais qualidade e responsabilidade. E isto pode contribuir para uma cidade melhor.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

TIC



    Neste momento, estou na sala da minha casa, prestes a escrever uma nova postagem neste blog. Abro o documento em branco e entre um pensamento e outro escuto as badaladas das dez da noite, do relógio da Igreja de São Pelegrino.
As badaladas dos relógios são marcantes no cotidiano de uma cidade e também no imaginário da gente. Os toques e badaladas dão o ritmo, o pulso, marcam o início e o final de um dia de trabalho, a hora de acordar, de dormir, no caso da igreja de cultuar e rezar, mesmo que as pessoas talvez já não o sigam mais tanto.
 Quando morava no Bairro Rio Branco, na subida da Tronca, onde era o antigo bairro lusitano, sabe? Não? Não sabe? Perto do Juventus... Bom, a história do antigo Bairro Lusitano fica para uma próxima postagem. Mas enfim, ouvia a Ave Maria de Gounod tocar às 18:00h, sempre que estava em casa e que o vento trazia a melodia para perto.
Hoje, morando em São Pelegrino, logo nas manhãs acordo, algumas poucas vezes com a Igreja, mas logo dou bom dia a ela. Tenho uma visão privilegiada da janela da minha cozinha. Logo, olho o seu relógio e começo a contar as horas, vou ao banho e cronometro o meu tempo pelo toque dos quinze minutos. Embora muitos não escutem, ele toca de quinze em quinze minutos e nas horas cheias, badala. O toque da missa também é diferente e, diga-se de passagem, tem o poder de um imã, ele chama mesmo. Praticamente convoca. Pois é, o relógio, este senhor do tempo, me avisa se estou muito demorada em baixo d’água, se o tempo de infusão do meu chá ultrapassou, se estou atrasada.
Demorei em me acostumar com o ritmo deste tic-tac. Aliás, o som é mais parecido com “blém-blém-blém”. Havia muito tempo não usava mais relógio, a não ser aquela olhadinha no celular ou o despertador, e o toque de quinze em quinze minutos me parecia frenético. Era muito chato este som avisando que o tempo passou, esta passando, a vida passa e passa.
Houve um dia em que ocorreu um episódio engraçado. Eu estava deitada no sofá, curtindo um ócio, e o relógio a milhão tocando os quinze direto e quando deu uma badalada – e naquele dia parecia ainda mais forte – eu comentei: –“Mas, "jogá" uma bomba nesse relógio é pouco!”
No dia seguinte, dei bom dia ao relógio da igreja, como de costume, e ele me disse – “Ana Lia, 09:40h”. Minutos depois, saí. Para chegar ao meu destino, tinha que passar pela Avenida Rio Branco, e é claro, dei aquela olhadinha pra cima e de repente, percebi que havia algo errado. O relógio continuava marcando 09:40h. Pensei: -“esse relógio está estragado”.
Juro que não foi praga, a vida é mesmo feita de coincidências. E vocês hão de convir comigo que seria muita prepotência achar que, justo uma  praga minha, ao relógio da Igreja, iria surtir algum efeito!
Os dias sem os toques foram estranhos, confesso que, embora de início estivesse incomodada, passei a sentir falta. Com o relógio parado, perdi o da minha cozinha, e este, para arrumar não seria simplesmente espichar o braço, retirá-lo da parede e trocar sua pilha. Tive que controlar o tempo de cozimento do meu feijão no microondas – funcional, mas menos romântico. 
O relógio da Igreja ficou alguns dias sem o ponteiro, uma imagem muito inusitada. Muitos e muitos turistas tiraram fotografias e levaram a recordação deste monumento com um pequeno, porém não menos significativo desfalque. Foi necessário o braço de um guindaste para retirar e colocar os ponteiros. Fotografei tudo.
Fiquei meio perdida por não ter mais um certo controle sobre o tempo. O que antes criticava e por isso não usava relógio, agora me estava fazendo falta. Muitos dos que vivem e convivem em São Pelegrino sentiram o mesmo. Uns achavam melhor e outros pior.
Busco diariamente, encontrar uma forma de me relacionar com o pulso do relógio, de uma maneira equilibrada. O utilizo para me ajudar a organizar o dia, sem me submeter a ele, se não quiser. Nem sempre acordo com ele, muitas vezes vou dormir muito mais tarde, mas às vezes vou à missa, quando dá vontade. Continuo tendo rompantes de amor e ódio em relação às badaladas, mas não deixo de me comover, às dezoito horas, com a Ave Maria.

TAC


Minha história com os relógios de Caxias não terminou. E acredito que não terminará tão cedo enquanto ambos existirmos. É natural numa cidade com fortes características industriais como a nossa, termos relógios espalhados e em monumentos, ditando nosso ritmo, como no caso da igreja São Pelegrino.

Mas o fato que vou contar em seguida foi um momento onde a magia aconteceu e eu estava sentada em um banco da praça Dante Alighieri, minutos antes do meio-dia, em um dia da semana.
Não, eu não estava alimentando pombos. Estava ali, estrategicamente em frente à Catedral, para analisar o cenário para o próximo desfile da Festa da Uva, que terminará na praça, com um grand finale.
Ao meio-dia o sino começou a soar. Era um lindo som. São raros os dias que me encontro no centro neste horário e, portanto, me senti num momento especial, de pura poesia. Desfrutei daquilo apreciando o cenário urbano com trilha sonora, até que as badaladas foram ficando mais baixas e mais esparsas como se estivessem se distanciando em direção ao infinito. Eu estava em êxtase aguardando o silenciar para me levantar e almoçar (afinal havia marcado a hora do almoço).
Instantes depois fui pega de surpresa. Ao final do soar do sino da catedral, surgiu um pulso marcante, um badalar forte e com personalidade. O som vinha da minha esquerda. Os dois sons se cruzaram por uns instantes, como numa polifonia, mas ao final ressoou apenas uma das vozes, esta menos melodiosa, menos reverberante, mais ríspida. Foram doze badaladas. E só. Havia se manifestado o relógio da indústria, o som vinha do relógio do edifício onde funcionava a Metalúrgica Abramo Eberle.
Ao ouvir esta sequência quase musical, me questionei se esta seria mais uma das coincidências da vida. Os relógios da Catedral e da antiga Eberle pareciam estar sendo regidos por um maestro. Quando uma melodia estava piano e sumindo, ele deu a entrada para a outra forte. Nos tempos exatos.
Após refletir e compartilhar esta história numa aula da especialização em Bens Culturais que estou fazendo, chegamos à conclusão de que não tenha sido ocasional este arranjo tocado pelo sino e relógio. Não voltei mais lá ao meio-dia para verificar se o mesmo aconteceria. Mas seria estranho os dois soarem ao mesmo tempo. Parece ter havido uma hierarquia nas manifestações – primeiro o da igreja, e depois o do que foi uma das maiores e mais influentes indústrias da história de Caxias.
Hoje o edifício encontra-se parcialmente utilizado pela FAI – Faculdade dos Imigrantes, por um estacionamento e por uma loja de brinquedos. Parte encontra-se em desuso.
Este edifício por muito tempo ficou fechado, em desuso, abandonado. Não estou certa, mas arrisco dizer aqui que talvez tenha um elemento que não parou de funcionar durante todo este tempo: o relógio.
É interessante ressaltar este fato porque a metalúrgica Eberle não existe mais, restou o edifício que muitos nem reparam. Porém o relógio sobreviveu. Ele representa simbolicamente a marca do seu tempo e o próprio tempo. O relógio é um símbolo de Caxias, um monumento e pode ser considerado, junto com o conjunto, um bem cultural material. Ele continua reproduzindo as badaladas – bem cultural imaterial – que ditavam e o tempo, os horários, as horas de jornada de trabalho, a hora de comer, a hora de dormir e que continuam no imaginário de quem viveu aquilo.
Se ele continua funcionando é porque ainda tem um significado. Em relação às iniciativas de preservação deste bem, o relógio me dá um alento porque me traz esperança. Ele me diz que de alguma maneira o edifício ainda pulsa, mesmo abandonado. E se pulsa é porque ainda tem algum resquício de vida. Podemos considerá-lo o coração do edifício?
O edifício da antiga Eberle necessita alguns choques elétricos culturais para reanimar e trazer o ritmo de volta, pontes de safena com parcerias, marcapassos com uma equipe de salvaguarda monitorando. As pessoas precisam correr nas suas veias novamente e livremente, em cada metro quadradro. Preservar e dar novos usos para reviver e seguir pulsando ao longo dos tempos.

TIC TAC TIC TAC

A força do tempo da metalúrgica Abramo Eberle é ainda muito influente. Alguns antigos funcionários, segundo relatos, continuam fazendo os mesmos horários de trabalho que cumpriam na firma, mesmo tendo saído de lá há muitos anos e mesmo a empresa não existindo mais.
E qual o Caxiense que não sente ao menos um pinguinho de culpa ao levantar um pouco mais tarde? Ao trabalhar um pouco menos?
E aqueles que fazem o contrário? Se vangloriam de trabalhar até a vigésima quinta hora, nos feriados e que acordam bem mais cedo do que os outros?
Agora os tempos são outros, ou pelo menos deveriam ser. Devemos relaxar mais, não se jogar tanto no trabalho, aproveitar mais a vida, conviver mais com a família e amigos, passear, ir ao cinema, ao teatro, ler, praticar esportes. Aos que não precisam levantar tão cedo, já diziam os Menudos –“no se reprima”.
Que o relógio sirva para sabermos a hora de parar de trabalhar para aproveitar a família, que sirva para nos ajudar a dividir as tarefas do dia-a-dia, a trazer equilíbrio.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O cenário de Romeu e Julieta

Passada a estréia da peça, fiquei satisfeita com o resultado do trabalho. O cenário esteve à serviço da peça,
e os atores puderam se utilizar dele como um dos meios para construir os personagens.
Gostei dele  porque fazia vezes de uma espécie biombo, já que os atores trocavam de roupa várias vezes, pois em dois fizeram vários personagens.
Tiveram cenas em que eles se trocaram atrás, teve cenas que eles fizeram o personagem atrás, sem precisar trocar de figurino, para dar o tempo certo, explorando alturas - horas apareciam somente suas cabeças. Uma hora muito engraçada é a que contracenam a Julieta e sua mãe. Seu figurino estava desenhado no cenário e era representado por bichos: uma vaca, uma cobra e uma galinha. Em conjunto com a figurinista Cris Lisot, criamos acessórios cênicos para com por o look, e que era usados pela atriz. O ator ia abrindo as faixas do cenário e a personagem da mãe ia aparecendo e desaparecendo, conforme as movia.
O banco com rodízios hora fazia parte da sacristia, onde sentavam-se os dois freis, hora era o balcão do quarto da Julieta, bastava ser apenas girado.
Seguem algumas fotos, assim como o link do facebook do ator Raulino Prezzi, onde encontram-se mais fotos do espetáculo.



Foi um trabalho muito feliz de fazer e deu tudo certo! Agradeço a equipe toda pela oportunidade!

PARA QUEM NÃO CONSEGUI ASSISTIR, HAVERÁ UMA APRESENTAÇÃO NO DIA 22 DE JUNHO NO TEATRO DO CENTRO DE CULTURA DR. HENRIQUE ORDOVÁS FILHO.

Um beijão

terça-feira, 10 de maio de 2011

Romeu e Julieta - Jamais Vós Vereis Algo Semelhante

Estreará dia 21 de maio, na casa da Cultura aqui de Caxias, o espetáculo "Romeu e Julieta- Jamais vós vereis algo semelhante". Os atores em cena serão Ana Fuchs e Raulino Prezzi.
Não comentarei muito sobre a peça para não estragar a surpresa!!! O ator comenta um pouco da peça em sua coluna, segue o link:
http://www.queb.com.br/colunas.php?id_colunista=49

O jornal O Caxiense também dá dicas do que  será o espetáculo:
O cenário que desenhei foi todo pensado a partir de um trabalho em equipe, junto com os atores e figurinista, com o objetivo principal de servir à peça. Este pretende funcionar como uma ferramenta para as ações dos personagens, os atores poderão interagir com ele. Acredito que esta relação trará surpresas a cada apresentação.

Busco embasar meu trabalho em alguns conceitos como um que dizia o cenógrafo Gianni Rato: o de que a cenografia faz parte do instrumental do espetáculo, devendo fugir do personalismo e do individualismo. Afirmava que o cenógrafo deve ter consciência de que seu papel é fundamentalmente o de um colaborador que dispõe sua criatividade, cultura e personalidade à serviço do mesmo. É claro, sem relegar seu papel a um segundo plano. Deve dar o melhor de si a uma causa com  milhares de anos de vida. ("Antitratado de Cenografia", pág. 22 e 23)

Para um bom projeto sair do papel, precisa de uma boa execução. O cenário foi feito pelo artista plástico Andre Gnatta, de Caxias do Sul.

Vale a pena conferir!!!!
Depois vocês me contam o que acharam!!!

Beijão

quinta-feira, 31 de março de 2011

FAZER ARQUITETURA, CIDADE E CENA e VIVER A VIDA

Oi!

Pretendo escrever sobre o que gosto, a começar por arquitetura, urbanismo, restauro, cenografia, música, sentimentos, desabafos, assuntos da cidade, o que vier na veneta...
Estas temáticas e outras coisas que adoro fazer, representam o que sou, fazem parte do meu ser e são indissociáveis. Sou tudo isso e se me falta música, não arquiteto, se não arquiteto não canto, se não canto, não vivo com um sentimento de plenitude e vice-versa.
Escrever tem se tornado uma necessidade para mim, entrou no grupo dessas atividades que adoro e por isso decidi fazer este blog. Além de uma vontade muito grande de falar, de expressar sentimentos, de contar histórias, protestar, rir, divulgar coisas, enfim...

Vou parecer uma anciã agora, mas vou contar como tudo começou...
Meu interesse da infância começou com a música, logo cedo pedi para a minha mãe me matricular na escola de música para estudar flauta doce. Mais tarde, na adolescência, iniciei meu estudo de violão. Passei no vestibular da UFRGS e cheguei a estudar uma ano e meio de violão clássico. Senti que não queria a música como profissão.

Neste um ano em Porto Alegre, me despertei para a cidade, para os edifícios históricos, gostava muito de caminhar e observar: aquele velho hábito de arquiteto - caminhar olhando para cima. Temos que cuidar com pequenos e desagradáveis acidentes...
Na faculdade, iniciei as atividades com o canto coral e paralelamente a isto já rolava um "violão churrasco" para mim mesma, porque tinha vergonha e várias travas para cantar. Embora haja me apresentado numa noite do "Balaio" da escola Objetivo, onde eu e meu amigo Antônio ganhamos o melhor show da noite, cantando "Carta ao Tom 74" e "Eu sei que vou te amar". Algumas pessoas ainda se lembram desta noite e comentam comigo o quanto foi legal.

Voltei para Caxias do Sul, buscando uma nova profissão e percebendo o meu interesse pela arquitetura, mesmo sem saber muito bem o que era, decidi iniciar o curso na Universidade de Caxias do Sul. Paralelamente a isto, ingressei no Coral da Universidade de Caxias do Sul, onde comecei a desenvolver este lado cantora e ainda meus primeiros passos cênicos, se se pode assim dizer. Bom, na infância queria ser atriz e fiz umas aulas de teatro...isto está em "banho-maria" de anos, mas o teatro ainda está no meus planos!

Em 2005, por uma jogada do destino (história que valeria ser contada à parte), ingressei no Coral Municipal de Caxias do Sul, onde tive o prazer de cantar até 2010, quando os compromissos arquitetônicos falaram mais alto. A participação neste coral foi muito marcante na minha vida por vários motivos, entre os quais alinhavar meu interesse pela arquitetura, música e teatro - trazendo a cenografia na minha vida. A maestrina  me deu a oportunidade de desenvolver a cenografia do espetáculo Celebration do Coral Municipal, em 2006. E a partir daí, tive muitas outras oportunidades que vou colocar no blog...aos poucos. E muitas histórias inacreditáveis de destino e conspiração dos astros em prol de algo...(tenho algumas!)

Em 2006,passei por um período de questionamento achando que não deveria ser arquiteta - estava em dois corais, além do Municipal, um octeto que cantava música sacra (Ah, que saudade também) , fazia aulas de flamenco, várias apresentações pelo coral, primeiro trabalho de cenografia, o lado FAZENDO CENA ia de vento em popa!

O lado FAZENDO CIDADE estava bombando, havia ingressado na Secretaria do Planejamento (SEPLAM) da cidade como estagiária, aprendi muito, participei de projetos importantes como o Inventário dos Patrimônio Histórico da Cidade, do planejamento do Bairro São Pelegrino, praça São pelegrino, Parque longitudinal e Plano Cicloviária para a cidade. Fazia a disciplina de laboratório de Arquitetura na SEPLAM e tenho orgulho de ter participado da primeira iniciativa da cidade em inserção da bicicleta como meio de transporte.

O FAZER ARQUITETURA ia meio "maus" . Andava meio desanimada pois não estava segura dos meus métodos. Fui fazer intercâmbio na Argentina e fui aluna de Miguel Angel Roca. Fui para lá com o intuito de afirmar minha vocação. A arquitetura era pegar ou largar! Lá me encontrei e hoje sou o que sou!
No primeiro dia de aula ele disse "En arquitectura hay que apassionarse" ou algo assim. Foi um aprendizado e tanto, voltei certa do que queria, fiz as pazes com a arquitetura e descobri que ela não deveria ser sofrimento.

Lá na Argentina aprendi a dançar tango, conheci um casal de cenógrafos italianos, nos tornamos amigos e através deles me inseri ainda mais no mundo da cenografia. Participei de um curso no Teatro Colón, que na época estava fechado para restauro. (que pena!) É claro que lá na terra dos hermanos arquitetei, dancei e cantei - participando de dois corais. No "Coral del Mundo" cantei em diversos idiomas, uma experiência fantástica!

Hoje minha vida é FAZER ARQUITETURA, CIDADE E CENA e é claro, VIVER, que é o mais importante! vou vivendo, sorrindo, aprendendo, amando, aproveitando cada momento com família e amigos, vencendo as dificuldades, aceitando os momentos tristes, e tentando seguir seu curso de uma maneira leve (tento pelo menos)
Não podemos deixar a vida passar, já dizia o poeta "é meu amigo, a vida é prá valer...e não se engane não, é uma só!