quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

“O espaço, protagonista da arquitetura”



“Se pensarmos um pouco a respeito, o fato de o espaço, o vazio, ser o protagonista da arquitetura é, no fundo, natural, porque a arquitetura não é apenas arte nem só imagem de vida histórica ou de vida vivida por nós e pelos outros; é também, e sobretudo, o ambiente, a cena onde vivemos nossa vida” (Bruno Zevi)


A frase que intitula este post foi retirada de um capítulo do livro “Saber ver a arquitetura” de Bruno Zevi. “O espaço, protagonista da arquitetura” já diz em grande parte, o que seria, para ele a essência da arquitetura: o fazer, o projetar espaços para o habitar do homem. O autor afirma que o caráter essencial da arquitetura é o fato de que, ao agir com um vocabulário tridimensional, inclui o homem e isto a distingue das outras artes.
A arquitetura, portanto, transcende o fato de ser a construção de uma edificação com piso + paredes + cobertura. A arquitetura, diz Zevi, “não provém de um conjunto de larguras, comprimentos e alturas dos elementos construtivos que encerram o espaço, mas precisamente do vazio, do espaço encerrado, do espaço interior em que os homens andam e vivem”.
Nesse sentido, entende-se que pode estar no espaço, este vazio entre as paredes, o valor de uma arquitetura. O espaço, segundo Zevi, “é o protagonista do fato arquitetônico”.
            Guardo uma lembrança de infância, de um dia que estava na biblioteca da escola e, em um livro de história havia um capítulo sobre a história da arquitetura, com grandes catedrais o ilustrando. Naquele dia me questionei a razão de não estudarmos aquela matéria. E de fato, eu não me recordo de ter tido uma aula de arquitetura na escola. Acredito não ter sido a única.
            Existe uma dificuldade de compreendermos a arquitetura até por não conhecê-la. Na década de 80, quando Zevi publicou o livro, questionou e apontou um defeito quanto ao estudo da arquitetura na história da arte: o fato de os edifícios serem apreciados como grandes esculturas ou pinturas, como simples fenômenos plásticos. O autor considerava esta análise externa e superficial.
            Se somarmos a questão da deficiência do ensino da arquitetura na escola, com a questão da análise rasa e meramente estilística da arquitetura ensinada na história da arte, teremos como resultado um grande desafio: o caminho para evoluir a qualificação da arquitetura.
            É claro que, sendo o espaço a essência da arquitetura, não se deve dizer que o único valor de uma edificação se esgote no espaço interior.  Zevi ressalta a pluralidade de valores de uma edificação além da espacial: técnicos, funcionais, econômicos, sociais, artísticos, decorativos. Para o autor, a realidade de um edifício é a consequência de todos estes e que “uma história válida não pode esquecer nenhum deles”.
            E quando Zevi fala em história, logo me lembro da arquitetura referente ao patrimônio cultural. No momento em que é feito o inventário de um bem,  um parecer a seu respeito, ou mesmo a sua valoração, o quanto o espaço interior da edificação é levado em conta? Na hora da definição do que permanece e do que será demolido nessa arquitetura, está sendo feita a pergunta: -“Este bem tem valor arquitetônico espacial?”.
             Muitas vezes acontece de certa arquitetura ser demolida por não ser considerada com valor arquitetônico. Atribui-se, frequentemente a sua valoração, o fator estilístico. Ou então, seu valor como monumento ou símbolo numa escala urbana. Porém deixam de lado o espaço interior.
É frequente na prática das intervenções em edificações patrimoniais a manutenção da fachada do edifício, como uma casca e a construção de um edifício totalmente novo por dentro, ou fazendo parte de uma fachada antiga que convive com uma contemporânea. Nestes casos, qual seria o critério para a demolição da edificação – será que ela não teria o valor espacial no seu interior?
É importante ressaltar que na arquitetura, cada caso pode ser um caso.  Podemos ter edificações com uma bela fachada, com um volume proporcionado, mas pobre em espaço. Ou edificações com excelentes espaços, mas não tão boas esteticamente. Quando o julgamento sobre a qualidade do espaço e os elementos estilísticos for positivo, Zevi considera estarmos diante de uma obra íntegra e, portanto, que o julgamento da arquitetura perpassa pela sua concepção espacial. A qualidade espacial é que dá o “sim” ou o “não” nas sentenças estéticas.
Este texto buscou trazer a questão do valor do espaço na arquitetura para reflexão, com o objetivo de qualificar e ampliar o debate sobre  as práticas da arquitetura no patrimônio. Através da preservação do espaço interno de uma edificação, poderá se compreender talvez muito mais sobre as atividades humanas, as práticas sociais, as relações de trabalho e poder, os traços culturais, de uma sociedade, do que mantendo apenas o exterior do edifício.
 O espaço interior também não pode ser analisado e compreendido apenas como um meio para julgar ou valorar uma boa ou má arquitetura. Até porque o conceito de patrimônio hoje, denominado cultural, é formado pela cultura material e imaterial e, os bens culturais já não podem ser valorados apenas sob o ponto de vista do valor arquitetônico. Mas sim pelo significado que a comunidade lhe atribui, se fez parte da construção de sua identidade.
A reflexão sobre o que se deve preservar e o que demolir é complexa e envolve muitos fatores, tanto conceituais e teóricos, como vimos neste texto, quanto às questões do próprio crescimento da cidade. O patrimônio imaterial e o valor espacial ainda são incipientes no debate. Aliás, a preservação como um todo é ainda embrionária aqui no Brasil, se compararmos com a Europa, por exemplo, pelo nosso tempo de existência.
Estamos avançando estágios. Hoje talvez nos contentemos em preservar uma fachada ou parte de um edifício, mesmo sabendo que estamos perdendo preciosidades por “não possuírem valor arquitetônico”. Mas caminhamos para chegar lá: incorporar a dimensão imaterial nos bens culturais e preservar os símbolos destas representações.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

BRILHA CAXIAS 2012




Andre Gnatta - montagem árvore



O Natal Brilha Caxias 2012 tem novidades na decoração. A Praça Dante Alighieri receberá a tradicional árvore de natal, mas este ano, numa nova linguagem. O conceito desenvolvido pela arquiteta Ana Lia Branchi em parceria com o artista plástico Andre Gnatta foi o de trabalhar a “simplicidade”, mas com ênfase na essência deste símbolo. Basicamente se compõe pela estrutura da árvore e pelas bolas de natal, com a tradicional estrela a coroando. A árvore de natal representa alegria, paz, esperança e é esta a mensagem que se deseja transmitir.
Para isso, a sua estrutura foi despojada de festões, fitas e guirlandas, este ano será aparente. O tratamento estético foi uma pintura decorativa. Os elementos de decoração serão aproximadamente 100 bolas de natal coloridas, injetadas pvc, com 60cm de diâmetro cada. 
O colorido da árvore pretende encantar durante o dia. À noite, as bolas serão iluminadas por dentro, a transformando em uma árvore de luz. A estrela, com mais de 2m de altura, constitui-se numa estrutura de aço revestida com tecido, com iluminação interna, seguindo o conceito de “lanterna chinesa”, com efeito colorido ao dia e grande efeito de luz, à noite.
As bolas de natal coloridas também vão decorar os 82 postes da praça e vias de entorno, bem como as sacadas do Juvenil e o Palco do Parque dos Macaquinhos.
Os materiais utilizados poderão ser, na grande maioria, todos reaproveitados, não gerando desperdícios.
O conceito este ano, além da sustentabilidade, é o de tocar as pessoas com o “simples”, com o essencial, com o objetivo final de encantá-las, trazendo aos seus olhos e corações a magia do Natal.

A árvore quase pronta

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

"TOMBAMENTO" DO PÓRTICO DA ANTIGA VINÍCOLA ANTUNES: UM ALERTA




Croqui aquerelado que arrisquei fazer, na época do TCC

O arquiteto tem essa “mania” de olhar, de perceber sua cidade. Além de ser minha profissão eu tenho este “hobbie” de observar a cidade. Ando muito a pé para observar estes mínimos detalhes.
A área do Cento de Cultura Ordovás, que antigamente pertencia a Vinícola Luiz Antunes & Cia, faz parte da minha vida, seja para o trabalho, seja para o lazer. Em muitas destas idas até lá, a área me chamou a atenção. Quando fui fazer meu tema do TCC, em 2008, para a Faculdade, logo a escolhi, sem saber o que iria projetar para ela. Apenas senti a necessidade de estudá-la.
Iniciei a monografia dizendo que havia feito uma leitura à “primeira vista” do local, tal qual um músico faz com uma partitura. Neste primeiro contato o músico reconhece algumas características como métrica, dinâmica, contrastes, enfim, os elementos de composição da obra, e que a torna única. Esta leitura da cidade fez saltar aos meus olhos problemas que continuam até hoje, daí a necessidade de estudá-la. Alguns destes problemas se referem a indefinições quanto aos espaços abertos pouco frequentados, alguns edifícios (dos poucos que restaram), abandonados, perda da área pública para parcelamentos e espaço viário.
O estudo da história da Vinícola mostrou que grande parte do seu patrimônio havia sido demolida. Dos dois conjuntos de pavilhões que ficavam um a cada lado de uma viela, sobraram três edifícios do lado direito: a UAB, o Antigo Albergue Municipal que será a Casa das Etnias, e um edifício em ruína no meio. O Ordovás e o Teatro permaneceram, bem como uma ruína de uma antiga vinagreira, a chaminé, uma ruína de caixa d’água. E é claro, o pórtico da Antiga Vinícola.
O pórtico, em estilo Art Decó, apresentava base e corpo executados em pedra basalto e o coroamento em alvenaria rebocada. Possuía frisos e letras em relevo, característicos do estilo. Das reminiscências, a que mais representava a antiga Vinícola era o pórtico.

Vocês notaram que me referi ao pórtico no passado?


Crédito: Paulo Pasa, Jornal O Caxiense

Crédito: Roni Rigon, Jornal O Pioneiro

Fatalmente na manhã do dia 06 de novembro, um caminhão guincho, com altura fora da norma, tentou passar por ele, e o tombou.
É claro que fiquei muito triste por vários fatores: era patrimônio histórico da cidade, era o que melhor representava antiga Vinícola Antunes. Mas não só esta vinícola, como todas as outras que também estão sendo ou já foram “derrubadas”, mas por outro guincho: o guincho da especulação imobiliária, o guincho da falta de visão de preservar a história, o guincho da ganância, do descaso, do descuido. Existem bens culturais materiais que estão sendo cuidados em Caxias do Sul. Mas outros, necessitam nosso olhar com atenção: o Prédio da Antiga Eberle, por exemplo. E o da MAESA, que se não cuidarmos, será demolido e transformado em vários prédios.


http://biblioteca.ibge.gov.br/colecao_digital_fotografias.php?this_pag=5&palavra_chave=Ic%F3


O fato do caminhão  ter botado à baixo nossa história foi escancarado e imediato, visível, chocante, uma morte súbita. Aquelas perdas mais inesperadas e dolorosas de superar. Mas existem outros descuidos, velados, por de baixo dos panos. Há muitos proprietários trafegando diariamente com o seu caminhão-guincho fora da norma. Mas este descuido não é tão perceptível aos nossos olhos. Esta destruição é lenta, disfarçada, o bem vai se deteriorando até cair, sem projeto, sem restauração, sem manutenção, sem conservação... o tempo vai agindo lentamente, o bem vai decaindo... até virar ruína. Então chega a hora do objetivo final: a demolição. Mas ai já estamos acostumados, ou conformados que aquele bem vai chegar ao seu fim, como um doente terminal. Acabamos não sofreremos tanto. Acomodamos.
Tomemos este “tombamento” do pórtico da Antiga Vinícola Antunes como aprendizado.  Por mais que muitos cuidem do patrimônio, como por exemplo a nova Lei, sancionada pelo prefeito, por ironia do destino, no mesmo dia da destruição do antigo pórtico, ainda há muito a ser feito. E nós cidadãos temos que cuidar dos bens e exigir que eles sejam cuidados. Este é o sentido da preservação.
E o que fazer agora? Reconstruir? Há a necessidade de fazer uma avaliação para ver se é possível a reconstrução. Sem falso histórico. Não estou por dentro do estado dos escombros para emitir uma opinião. É necessário que profissionais especializados avaliem e proponham a forma que acharem mais adequada. Mas sei que o pórtico deve continuar um elemento daquele lugar, para continuar a história. A lacuna do pórtico deve ser preenchida.


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O TEMPO "RUGE"


       

Acredito não ser a única a viver com uma angustia por não vencer o tempo e achar que o dia deveria ter mais de 24h. Nas tarefas do trabalho, de casa, do pós-graduação, os exercícios físicos, o lazer, o violão...A semana passa e tenho a sensação de ter feito muito menos do que eu me havia proposto. A angústia vem porque não paro um minuto e mesmo assim isso acontece. E assim como passa a semana, passa o ano, passam anos.

Ingressei na academia de ginástica há dois meses e a atitude decisiva foi tomada após me dar conta de que havia três anos que "prometia" para a médica (e isso adianta? a promessa deveria ser para mim mesma) que começaria a fazer exercícios físicos. A desculpa principal para não ir era a tal da "falta de tempo".

Pois é, estas últimas semanas foram importantes pois decidi mudar de atitude frente a isso. Parei e questionei.-"Mas por que que estou vivendo desta maneira?" Essa sensação de impotência frente ao tempo, ao mundo que parece girar cada vez mais rápido, nos deixando estressados, frustrados e infelizes. Emendamos como loucos uma atividade na outra, estendemos o horário de trabalho, se possível tentamos "sentar em mais de uma cadeira" ao mesmo tempo. São compromissos, tarefas, diversos tipos de exigências, família, amigos, cuidado com a saúde, meio-ambiente, e outros.

Para cumprirmos tudo isso, acabamos lutando contra o tempo. Eu estava, já num ponto de passar grande parte do meu tempo pensando em como otimizá-lo. Ok, isso é importante, no trabalho, por exemplo. Mas não é a isso que me refiro. Estava sincronizando ações do tipo, entrar no carro, colocar a chave e ligar os faróis ao mesmo tempo, já arrancava botando o cinto e tentando meter a frente do rádio de uma vez. Este fato isolado não parece grave, mas se formos somar a todos e pensar no apuro o tempo inteiro, temos como resultado o mais puro estresse. Não dava muita bola para isso, mas sei que temos que buscar bem-estar, cuidar da gente, da mente e da saúde para nos tornarmos melhores. Não é esse um sentido interessante para se dar à vida? Nos tornarmos melhores? Sermos felizes?

Essa "doidera" de fazer atividades múltiplas gera ansiedade. Veja bem, não estou dizendo que não se façam coisas ao mesmo tempo. Poderia muito bem estar assando um pão no forno enquanto escrevo. O que muitas vezes não se dá a devida atenção à determinada atividade, por estarmos fazendo outras, atropeladamente. Isso é que agita, a ansiedade não faz bem, anda junto com a angústia que sentimos, na luta contra o tempo. Por exemplo, atender o celular dirigindo, ou na rua, são atos que não combinam juntos. Na rua, muitas vezes o ruído é grande, não temos onde anotar coisas, pode ser perigoso, pois o pedestre também se distrai, além de não darmos à devida atenção à pessoa com quem estamos falando. Isso também priva do bem estar de caminhar, observar e interagir com o meio, o que gera qualidade de vida.

Sabe o que me deixa muito feliz? caminhar pela cidade, principalmente por São Pelegrino, bairro onde moro e tenho escritório. Comprar meu pãozinho cada dia num lugar diferente, observar as pessoas em suas atividades, a arquitetura, tomar um café, conversar.

É... como diz minha avó, o tempo "ruge" e não urge. Na nossa vida, temos que aprender a lidar com isso. A lição disso tudo é encontrar o equilíbrio. A luta contra o tempo é vã. Temos que fazer o possível, ir fazendo as atividades e o que não conseguimos hoje, fazemos amanhã, talvez tenhamos que deixar de ser imediatistas. Cumprir os compromissos, mas sem esquecer a saúde, a atenção a si e viver as pequenas alegrias do cotidiano.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

OS MUITOS SÃO PELEGRINOS

Recém terminei de almoçar, em um café aqui de São Pelegrino. Agora, degustando meu cafezinho, lhes escrevo este post.
Frequento seguidamente este lugar, localizado na Avenida Júlio de Castilhos, e sempre me sento em uma janela onde posso ver a rua e as pessoas caminhando e tomar um sol agradável. Mas nunca tinha me chamado a atenção uma janela que dá para os fundos do terreno.
Na verdade, refletindo melhor, o que me chamou a atenção não foi a janela, mas o que enxerguei através dela. Um galho de um pé de caqui carregado, em que os frutos de cor laranja sobressaiam-se, pois o verde das árvores lhe servia como pano de fundo para, ao sol sol do meio-dia, praticamente reluzirem.
-"Como assim?" Logo me perguntei. Estou rodeada de edificações, paralelepípedos, carros, estacionamentos... - "Para que paisagem estou olhando?"
Logo quis me aproximar da janela para observar. E minha resposta estava dada, como suspeitava. Era o fundo de lote da residência vizinha. Mas ao lado, o que não aparecia no meu ângulo romântico, o estacionamento ocupando as áreas não edificadas do lote ao lado.
Não se sabe por quanto tempo este fundo de lote verde, com araucárias, árvores frutíferas vai durar. A especulação é grande na região.
O Bairro São Pelegrino está sofrendo muitas modificações nestes últimos anos, assim como toda Caxias. Hoje, depende de onde olhamos, vemos muitos "São Pelegrinos", poucos traços do que era, muito do que é hoje. Fragmentos de cidade, muitas vezes desconexos, como se fosse um espelho quebrado.
Como será o amanhã? Como será o bairro, sem os fundos de lote?


quinta-feira, 24 de maio de 2012

A VITRINE ESPELHO



Caminhar pelas ruas de Caxias do Sul tem sido inspirador e revelador para mim. Ok, vou deixar o romantismo um pouco de lado para contar este fato. Eu gostaria de estar caminhando e apreciando a paisagem, ou os fragmentos dela, mas a realidade era outra. Eu estava na correria, voltando para o carro e num relance vi justamento o que quero lhes contar (nota-se pelo dedinho aparecendo na foto!).
Numa marcearia tradicional na Avenida Júlio de Castilhos, estavam expostas na vitrine para o lado de dentro, lindas capelinhas esculpidas em madeira de demolição. No lado de fora, penduradas nas grades, cestos de vime e palha faziam a composição daquela fachada.
Nesta vitrine também estavam expostos panos de prato pintados à mão. Mas o interessante é que, juntamente com esse artesanato tradicional, figuravam no conjunto “meias da loba” e picolés.
A vitrine do estabelecimento mostra muito do que somos. Ela expôs o artesanato local como os elementos religiosos, elementos funcionais como os cestos e mesclou com outros tipos de artigos. Com isso o formato das antigas mercearias se parece se manter vivo, vendendo “de tudo”.

Caxias do Sul é isso, as tradições que se mantém, que se perdem, que se renovam. Os processos culturais são mesmo assim. Neste caso, se este processo cultural se manteve, as marcas da contemporaneidade podem ser identificadas, não tanto pelos produtos, mas sim pelas grades que aprisionam e pelas bandeiras de cartões de crédito afixadas no vidro.

Esta foi mais uma história em que a cidade se revelou aos olhos desta arquiteta, que, enxergando-se naquela vitrine, percebeu que aquela mercearia não estava mostrando apenas  produtos, mas que eles em si e também seu modo de exposição constituem elementos culturais formadores da nossa cultura. Era uma vitrine-espelho.



As Capelinhas
As capelinhas merecem um destaque à parte, são feitas por um senhor de Flores da Cunha. O design tradicional, usa a madeira de demolição, material contemporâneo, para a execução. O artesanato destas é o retrato de como a tradição encontra a inovação, de como o processo do artesanato sacro em madeira tem sido feito atualmente e que o significado e valor que estes elementos tem para a sociedade, continua perpassando os tempos. 
Até a próxima!



quarta-feira, 23 de maio de 2012

"O FAUNO" - peça teatral


Parabéns a todos os envolvidos na peça teatral "O Fauno", em especial a Márcio Ramos, ator deste monólogo e Ana Fuchs, diretora. Mais um sucesso nas críticas.
Gostei muito de ter participado desta montagem e fico feliz que o cenário esteja funcionando e contribuindo com a proposta.
Beijos

Confira a crítica de Carlinhos Santos, do Jornal "Pioneiro", para a última montagem que aconteceu aqui em caxias do Sul, nos dias 18,19 e 20 de maio no Ordovás.

http://www.clicrbs.com.br/pdf/13477637.pdf

Neste blog, quando estreou a peça, escrevi sobre o conceito do cenário, confira também:
http://analiabranchi.blogspot.com.br/2011/11/o-cenario-de-o-fauno.html                                                                                       














Créditos Fotos: Douglas Trancoso

quinta-feira, 17 de maio de 2012

SINCRETISMO CULTURAL

Caminhando por São Pelegrino, vi no colo de uma estátua dum "preto véio" vestido de gaúcho, um pacote de grostolis...




sexta-feira, 4 de maio de 2012

LAGARTEADA INTERROMPIDA

                                                 

   Certa vez me perguntaram em uma entrevista se eu era amante de relógios por ter escrito sobre em uma crônica. Respondi que havia escrito não porque era amante e sim porque eles eram elementos muito presentes em Caxias do Sul. Como gosto de escrever sobre o que se passa na cidade, inevitavelmente acabo os mencionando nas histórias.
      Hoje, deitada em um banco do "Parque dos Macaquinhos", num gostoso  lagartear (lembrando que esta gíria significa "expor-se ao sol preguiçosamente"), fui acordada pelas ríspidas badaladas das quatro horas da tarde emitidos pelo relógio da antiga Eberle. Ao ouvir aquele toque metálico, em um movimento inconsciente, logo me coloquei de prontidão. Num ato quase que servil, "chacoalhei" o corpinho e me coloquei a postos. Não sei para que, pois estou de férias!!! Enfim, coloquei a cabeça para funcionar e produzir. Logo pensei em postar no blog, afinal não estava mais conseguindo tempo para escrever. Agora, nas minhas próprias férias um relógio me ajuda a achar este tempo! Ironia ou funcionamento do mundo? 
      Analisando a situação me dei conta de que, em pleno centro de Caxias, encontramos um dos maiores espaços de lazer da cidade, o "Parque dos Macaquinhos" ao lado do que foi uma das sua maiores industrias, a antiga Metalúrgica Abramo Eberle. O edifício, parcialmente utilizado e quase abandonado, possui o relógio ainda funcionando.  Percebi que o tempo de Caxias pudesse talvez ser regido pelo imponente relogio localizado neste edifício, e que tirar ferias na cidade é um pouco mais difícil. 
                     

       Encontre o "Wally", na foto (não, não é o carinha com blusa listrada vermelha e branca e cachecol!!!)

       Foto: Parque dos Macaquinhos e seu vizinho "badalador", que, deste ponto faz mais barulho do que é visto                              

     Mesmo assim, fico feliz pelo relógio ainda funcionar. Como já escrevi em outros momentos, o relógio é o pulso do prédio que necessita ser revitalizado. Nossa, neste momento soou as cinco da tarde!Uma hora de escrita já esta bom. Agora é hora de fazer outra atividade. 
     É claro que o parque nem sempre foi parque e a metalúrgica nao é mais metalúrgica. Este contraste não foi proposital, até porque o parque inicialmente foi uma represa. Mas esta não deixa de ser uma coincidência interessante da história urbana de Caxias. O contraponto de significados  "lazer x trabalho" entre estes dois lugares emblemáticos foi apontado por uma arquiteta que adora observar a cidade e que, "lagarteando" numa tarde, os relacionou.
E, por último, o que o edifício será então, se não uma metalúrgica? O tempo está correndo, o tempo dirá. E claro a atenção e o trabalho de recuperação que deve ser feito. Tempo e trabalho. Trabalho e tempo. Urgente! 
      Que o relógio da Eberle, este "ponto no i" que aponta o céu de Caxias, alerte a população e as autoridades sobre o seu estado de conservação e que um movimento de recuperação se inicie!!! 

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

RECONHECIMENTO



                                                                      Foto: Almanaque - Daniela Xu

     Estou muito satisfeita com a matéria a meu respeito, publicada pela coluna "Sociedade" de João Pulita, na Revista Almanaque do Jornal Pioneiro deste final de semana. Sinto-me feliz porque a considero o reconhecimento do meu trabalho, do esforço diário, do amor pela cidade e do querer trabalhar por ela, das minhas observações sobre o cotidiano, minha relação emocional com os espaços, pessoas, sons, e minha vontade de expressá-las no papel, através de textos neste blog. O colunista traduziu meu sentimento lindamente em suas palavras e coloca o título que gostei muito: "Olhar Urbano". 
    Gostaria de agradecer e parabenizar à coluna pelo texto, pela foto que ficou linda e pela matéria em si, pois segundo meus amigos, ficou bem o que sou. Concordo!
     Pretendo continuar com este olhar, a escrever neste blog, não somente sobre arquitetura, urbanismo, patrimônio ou cenografia, mas sobre o cotidiano, porque a nossas relações se dão ai. A cultura está no cotidiano.
        Confira a matéria:

   Abraço

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O cenário de "O Fauno"

        Estreou em Caxias do Sul, na sede do Teatro do Encontro, no dia 29 de outubro a peça "O Fauno", de direção de Ana Fuchs, um monólogo com o ator Márcio Ramos. Fui convidada pela diretora no ano passado para participar do projeto fazendo a cenografia da peça.  


     A cenografia da peça foi criada com o objetivo de contribuir com a construção e ações cênicas do personagens. O personagem fala sobre as escolhas da vida e no texto isto é representado através dos fios da vida. 
     Conceitualmente o fio foi o elemento escolhido para a materialização do cenário e buscou-se explorar as possibilidades destes. Uma espécie de caverna foi o lugar pensado para representar o local onde o personagem e a platéia se encontrariam naquele momento: se encaminhando para a "terra dos mortos", onde mais tarde, teriam de escolher seu caminho, o limbo, o inferno ou o paraíso.
         A organicidade da caverna é atemporal e se encaixa com a atmosfera desejada. A peça é interessante pois pode ser apresentada em locais alternativos e os fios podem se moldar a eles.  Os fios foram todos doados pelo Banco de Vestuário de Caxias do Sul, que doou retalhos também para fazer cultura.
     A montagem para a estréia durou aproximadamente quatro dias e considerei praticamente uma instalação artística. Havia vários tipos de fio, e cada um foi trabalhado plasticamente com o que poderia oferecer. Havia retalhos de tecido cortados em tira, que foram sendo emendados, criando as formas da caverna. Algumas formavam espécie de estalactites estalagmites, que pendiam do teto. Outro tipo era uma espécie de estopa, também retalho, que foi sendo aberta e disposta de modo a formar espécies de teias de aranha. Também foi utilizado barbante.
     A "tesoura das moiras" também foi confeccionada com barbante na parte do cabo, com um resultado bem rústico, na mesma linguagem do cenário.
      
      Após a estréia houve um debate com o público, este deu bons retornos para a equipe, contribuindo para atingir outro objetivo da peça, que é ir mudando, se aperfeiçoando.







       A peça também recebeu a crítica de Marcelo Aramis, do "O Caxiense", que foi um ótimo retorno. A crítica é importante para sempre buscarmos o crescimento. Na parte da cenografia, sua interpretação captou a intenção da criação, que era a interação com o personagem. Fiquei satisfeita com sua constatação pois é um sinal de que o trabalho deu certo. A cenografia deve fazer parte, caso contrário, torna-se obsoleta ou meramente decorativa.  Confira abaixo a crítica:
     
      Me senti muito feliz com a realização deste trabalho, o resultado me agradou muito e foi fruto de um trabalho feito em conjunto com toda a equipe técnica. 
     Agradeço a toda a equipe pela oportunidade e também à arquiteta Priscila Gianne pela colaboração na confecção de adereços cênicos e montagem da peça na estréia.
 
      Um abraço!


                                  Márcio Ramos, Priscila Gianne, Ana Lia Branchi, Ana Fuchs

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O “Dia Mundial Sem Carro”



Como uma faísca atrasada, venho comentar no blog o “Dia Mundial Sem Carro”, que ocorreu neste dia 22 de setembro e mobilizou pessoas e cidades do mundo inteiro. E não fez nem cócegas em outras.
É uma boa iniciativa, devagar e sempre se chega lá, dizemos! Tem o objetivo de conscientizar as pessoas a deixar o carro em casa, utilizando o transporte coletivo, os meios não motorizados, como a bicicleta, iniciando a incorporar no cotidiano os conceitos do transporte e mobilidade sustentável. Estamos num processo muito incipiente aqui em Caxias, a campanha chegou um pouco mais tarde que em outros lugares. Faísca atrasada, como eu, neste caso. Veloz e “de vento em popa” andam  as vendas de carro, que aumentam anualmente!!!
Mas como, dizem também que nunca é tarde para começar, fico feliz que já se esteja falando disto em Caxias e é por esta razão que decidi escrever este texto.
Com a temática do transporte sustentável, do “Dia Mundial sem Carro”, do uso da bicicleta como meio de transporte, me familiarizei quando fui estagiária da Secretaria do Planejamento de Caxias do Sul, em 2006. Ali, desenvolvi minha monografia de estágio com a temática inserção da bicicleta como meio de transporte em Caxias do Sul, assunto, até então, pouco abordado no meio acadêmico, recém iniciado como política pública nacional e ainda engatinhando nas mídias.
A partir de então, e ainda estudante, comecei a colocar em prática alguns destes conceitos: andava muito a pé, usava transporte coletivo, muitas vezes fui ao trabalho de bicicleta – sentindo na pele os problemas enfrentados pelos usuários.
Na verdade o “Dia Mundial sem Carro” deveria ser todo o dia. Sem radicalismos, claro. A chave seria utilizarmos o carro no estritamente necessário. Mas para isso, teríamos que ter opção de transporte.
Aqui em Caxias, dependendo da linha ou do itinerário o transporte torna-se limitado, oneroso. Dependendo o deslocamento, o carro ainda é mais econômico. E falo isto com conhecimento de causa, pois já cheguei a fazer anotações sobre itinerários, demoras, etc., a cada viagem que fazia. Tipo um diário de bordo. Mas um dia chegamos lá! Eu acredito!
Hoje, já formada, fica difícil praticar os preceitos do “Dia Mundial Sem Carro” como gostaria. Na profissão do arquiteto, o carro é “uma mal necessário”, pois temos que ir a diversos lugares em um período curto de tempo, ir a obras, clientes, lojas, reuniões, o que levaria horas perdidas e gastos com taxi e ônibus, o que torna praticamente inviável. Compenso de outras formas: optei por morar ao lado do trabalho para evitar estes deslocamentos.

As aventuras da “arquiteta descalça”


Não pense que porque o carro é quase indispensável na profissão eu não tenha andado a pé. E ainda ando, muito! Uso bastante também o transporte coletivo.
Quando dá tempo, e tenho que ir somente a um lugar e voltar para o escritório, vou de carona e volto a pé, vou de ônibus, pego um taxi e assim vou. Sempre busco o equilíbrio. Quando tenho que usar o carro, não tem jeito. E pronto.
Nem sempre isto foi uma opção. Muitas vezes tive que fazer isto pela ausência de uma carro. Hoje, ainda divido carro com a família e muitas vezes “me pego sem!”. Me sinto descalça!!!  Embora prefira a sensação de liberdade de estar a pé, sinto falta do aprisionamento do carro.
Muitas vezes fui à obras de taxi. E estas idas me fizeram vivenciar muitas histórias estranhas e engraçadas.
Certa vez, cheguei de taxi na obra e o mestre grita lá de dentro: -“Oh, Ana, quando é que tu vai comprá um cavalo?”
Em outra obra, vivenciei quase um drama (tá estou exagerando um pouco!) que hoje dou risada, mas já fiquei presa numa obra por estar a pé. Explico: peguei um ônibus até a obra, cheguei e avisei o mestre que o esperaria lá encima para conversarmos. Enquanto ele não vinha, fui tirando umas medidas. Como não queria perder tempo, me concentrei demais no trabalho, e quando me dei por conta, estava um silêncio na obra. Desconfiei, mas continuei medindo e esperando pelo mestre, já que havíamos combinado de conversar e ele não me deixaria na mão.
De repente escutei o soar do alarme. Então me dei conta do que estava acontecendo, eles já tinham ido e estavam fechando a obra. Detalhe, numa sexta final da tarde. Talvez alguém viesse me buscar na segunda!
Bom, saí correndo, quase caí no vão da escada, quase me matei, na verdade. Chamei pelo mestre. Quando cheguei na porta, ela estava fechada. Sei que olhei para o tapume, esta superfície cinza e rústica e apenas um elementinho se movia neste mar de estanqueidade: o piscar dos seus olhos atrás do buraco da corrente. Foi quando vi que Gilmar tinha me encontrado. Me disse: -“Guenta ai que vou te tirar”. Mas.. por que tirar? Seria isto um resgate? Porque ele já tinha trancado o cadeado e a chave ficava com a segurança.
Não sei como Gilmar entrou na obra. Pegou uma escada e colocou ela no muro de divisa, para o terreno fora. O detalhe é que para eu acessar o muro e descer a escada, tinha que dar um passo da laje onde estava para o mesmo, cruzando um precipício de aproximadamente três metros. Além de dar o passo, tive que dar meia volta em 25cm de muro – quase uma corda bamba- para descer a escada de ré. Minha única segurança era meu equilíbrio e a mão de Gilmar, que também estava em pé,  de equilibrista.
Após descer e agradecer aos céus por ter chegado viva ao chão, no terreno do vizinho, perguntei ao mestre se ele já tinha assistido ao filme “Esqueceram de Mim”. Ele me respondeu que desceu, olhou a redondeza, viu que não tinha nenhum carro, e achou que eu tivesse ido embora!!! Vê se pode!!! 
No final da história, ele propôs a combinação de que eu poderia ir na obra sempre que pudesse nos finais de tarde que ele me daria uma carona de volta até São Pelegrino. Acabei fazendo amizade com ele e vivendo histórias do cotidiano que a redoma individual chamada automóvel talvez não me permitisse.


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

TROCA DE FIGURINHAS


Compartilho no blog a minha participação na  Coluna Ciranda de Raulino Prezzi, com o "Troca de Figurinhas". Confira!!!!

                                           

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

"Tudo o que a gente faz é um pedacinho de cidade"

        No mês de agosto, aqui em Caxias, pude prestigiar as palestras de dois importantes arquitetos brasileiros, Marcelo Ferraz e Ruy Ohtake.
            A primeira palestra, do Ferraz, aconteceu no Campus 8 da Universidade de Caxias do Sul e fez parte do 1º Congresso Nacional de Arquitetura. Seu título era “Esquecer para lembrar”. A princípio pareceu um pouco confuso, até mesmo um enigma a ser decifrado. Fiquei me perguntando:-“Como assim? Esquecer para lembrar? O que isto quer dizer?”
            “Esquecer para lembrar” está relacionado com a temática do patrimônio. O arquiteto abordou conceitos complexos de forma simples sobre como podemos intervir em áreas e edificações históricas. Segundo ele, esta expressão tem haver com as escolhas que o arquiteto tem de fazer diariamente e que estas interferem na vida das pessoas: é a responsabilidade civil deste profissional.
            Em termos práticos, quando nos deparamos com um bem material, temos que nos posicionar e fazer o juízo de valor sobre ele. No projeto de arquitetura, o que fica? O sai?
Muitas vezes pode-se valorizar um patrimônio, retirando-se uma parte e colocando uma nova que adapte a obra aos dias atuais, que a resignifique para a comunidade. Demolir uma parte do antigo para colocar o novo pode ser polêmico e muitos podem não aceitar. Por outro lado, podemos pensar que lembraremos muito mais do bem e das histórias relacionadas à ele, se ele tiver um novo significado. Esquecer para lembrar... a pergunta foi lançada pelo arquiteto:-“O que seria da memória sem o esquecimento?”
            Esta postura frente ao patrimônio me parece muito adequada à contemporaneidade, mas ainda não está incorporada pela maioria, gerando ainda polêmicas. Ferraz analisou bem o panorama de hoje: de um lado os preservacionistas; de outro, os demolidores. Disse que não deveríamos ficar neste padrão. E porque não encontrarmos um equilíbrio?
            Para combater esta dualidade e encontrar o ponto médio entre demolir ou preservar, propôs ações em duas pontas, sendo a primeira, formação e educação, e a segunda, experimentação controlada. Criando esta “massa crítica”, vislumbrou a possibilidade de que, um dia, não precisemos de órgãos de preservação para manter nosso patrimônio.
            O patrimônio edificado deve ser preservado, porém não pode virar empecilho. Também não pode ficar abandonado ou ser demolido. A cidade deve se refazer, não podemos congelá-la. A arquitetura deve estar a serviço das necessidades do homem. Tendo em vista estes condicionantes, o trabalho do arquiteto pode contribuir para encontrar este equilíbrio entre demolir e preservar.  Temos que lembrar que o planejamento urbano através do plano diretor, pode regrar isto. Sabemos que, em muitos casos, a preservação do patrimônio e o plano diretor não andam juntos. Fica este assunto como “cenas do próximo capítulo”.
            Ferraz apresentou alguns projetos, somente museus. Aquela arquitetura “desceu redondo”, assim como a palestra inteira. Os projetos mostravam as teorias que recém havia comentado.  No início da palestra o arquiteto disse que carecemos de conversa. Disse que a arquitetura deve ser “conversável”, que tenha significado e     que toque o coração das pessoas. Ao final percebi claramente isto que queria dizer. Os projetos conversaram, deixaram claro seu significado e tocaram o coração. Não preciso dizer que sou sua fã, né? O tenho como referência na minha trajetória profissional, só não digo guru para não parecer fundamentalista.
            Bom, isto que não fui visitar nenhuma de suas obras. Espero que, quando isto acontecer, a experiência se torne completa. Ruy Ohtake, na sua palestra, disse que entende por arquitetura aquela que foi construída. E realmente, a experiência de um indivíduo com a arquitetura pressupõe o seu percurso dentro e fora dela. É o que Bruno Zevi e “Saber ver a arquitetura” denomina de a quarta dimensão da arquitetura.
            Ohtake mostrou muitos de seus projetos, mas gostei do que falou sobre a questão de seguirmos nossa intuição. Se tivermos a intuição de uma forma, não ignorá-la, mas trabalhá-la para que possa ser empregada no projeto. No hotel Unique, ele teve a inspiração de uma forma que lembrava um semicírculo e esta se repetiu tanto na forma do edifício, como na planta.
            Dentre todos os conceitos e projetos abordados tanto pelo Ferraz como pelo Ohtake, ambos os arquitetos mencionaram a questão do convencimento. O Ferraz falou sobre a questão do arquiteto atuante, em que este possa perceber os problemas e potenciais de áreas da cidade e faça propostas às prefeituras ou iniciativa privada para fazer acontecer o projeto. Isto nem sempre sai “de primeira”, o processo pode demorar anos, gestões de prefeituras e etc. Disse, então, que este trabalho é um “eterno convencimento”. Ohtake contou um episódio em que convenceu os donos de um empreendimento a fazer as sacadas do prédio em curvas, uma diferente da outra, mesmo que isto tivesse um custo muito mais elevado. Conseguiu isto, pelo fato de ter convencido que a forma do edifício agregava maior valor ao empreendimento.
            As visitas destes dois arquitetos foram importantes e inspiradoras para a prática da arquitetura em Caxias. Para tecermos os “pedacinhos de cidade”, como disse o Ferraz, atuando em diversas escalas, envolvendo o patrimônio, ou não, faz-se necessário o aprimoramento do conhecimento. O enriquecimento do repertório arquitetônico e das vivências fazem com que o projeto, este “transformador de realidade”, fique cada vez com mais qualidade e responsabilidade. E isto pode contribuir para uma cidade melhor.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

TIC



    Neste momento, estou na sala da minha casa, prestes a escrever uma nova postagem neste blog. Abro o documento em branco e entre um pensamento e outro escuto as badaladas das dez da noite, do relógio da Igreja de São Pelegrino.
As badaladas dos relógios são marcantes no cotidiano de uma cidade e também no imaginário da gente. Os toques e badaladas dão o ritmo, o pulso, marcam o início e o final de um dia de trabalho, a hora de acordar, de dormir, no caso da igreja de cultuar e rezar, mesmo que as pessoas talvez já não o sigam mais tanto.
 Quando morava no Bairro Rio Branco, na subida da Tronca, onde era o antigo bairro lusitano, sabe? Não? Não sabe? Perto do Juventus... Bom, a história do antigo Bairro Lusitano fica para uma próxima postagem. Mas enfim, ouvia a Ave Maria de Gounod tocar às 18:00h, sempre que estava em casa e que o vento trazia a melodia para perto.
Hoje, morando em São Pelegrino, logo nas manhãs acordo, algumas poucas vezes com a Igreja, mas logo dou bom dia a ela. Tenho uma visão privilegiada da janela da minha cozinha. Logo, olho o seu relógio e começo a contar as horas, vou ao banho e cronometro o meu tempo pelo toque dos quinze minutos. Embora muitos não escutem, ele toca de quinze em quinze minutos e nas horas cheias, badala. O toque da missa também é diferente e, diga-se de passagem, tem o poder de um imã, ele chama mesmo. Praticamente convoca. Pois é, o relógio, este senhor do tempo, me avisa se estou muito demorada em baixo d’água, se o tempo de infusão do meu chá ultrapassou, se estou atrasada.
Demorei em me acostumar com o ritmo deste tic-tac. Aliás, o som é mais parecido com “blém-blém-blém”. Havia muito tempo não usava mais relógio, a não ser aquela olhadinha no celular ou o despertador, e o toque de quinze em quinze minutos me parecia frenético. Era muito chato este som avisando que o tempo passou, esta passando, a vida passa e passa.
Houve um dia em que ocorreu um episódio engraçado. Eu estava deitada no sofá, curtindo um ócio, e o relógio a milhão tocando os quinze direto e quando deu uma badalada – e naquele dia parecia ainda mais forte – eu comentei: –“Mas, "jogá" uma bomba nesse relógio é pouco!”
No dia seguinte, dei bom dia ao relógio da igreja, como de costume, e ele me disse – “Ana Lia, 09:40h”. Minutos depois, saí. Para chegar ao meu destino, tinha que passar pela Avenida Rio Branco, e é claro, dei aquela olhadinha pra cima e de repente, percebi que havia algo errado. O relógio continuava marcando 09:40h. Pensei: -“esse relógio está estragado”.
Juro que não foi praga, a vida é mesmo feita de coincidências. E vocês hão de convir comigo que seria muita prepotência achar que, justo uma  praga minha, ao relógio da Igreja, iria surtir algum efeito!
Os dias sem os toques foram estranhos, confesso que, embora de início estivesse incomodada, passei a sentir falta. Com o relógio parado, perdi o da minha cozinha, e este, para arrumar não seria simplesmente espichar o braço, retirá-lo da parede e trocar sua pilha. Tive que controlar o tempo de cozimento do meu feijão no microondas – funcional, mas menos romântico. 
O relógio da Igreja ficou alguns dias sem o ponteiro, uma imagem muito inusitada. Muitos e muitos turistas tiraram fotografias e levaram a recordação deste monumento com um pequeno, porém não menos significativo desfalque. Foi necessário o braço de um guindaste para retirar e colocar os ponteiros. Fotografei tudo.
Fiquei meio perdida por não ter mais um certo controle sobre o tempo. O que antes criticava e por isso não usava relógio, agora me estava fazendo falta. Muitos dos que vivem e convivem em São Pelegrino sentiram o mesmo. Uns achavam melhor e outros pior.
Busco diariamente, encontrar uma forma de me relacionar com o pulso do relógio, de uma maneira equilibrada. O utilizo para me ajudar a organizar o dia, sem me submeter a ele, se não quiser. Nem sempre acordo com ele, muitas vezes vou dormir muito mais tarde, mas às vezes vou à missa, quando dá vontade. Continuo tendo rompantes de amor e ódio em relação às badaladas, mas não deixo de me comover, às dezoito horas, com a Ave Maria.

TAC


Minha história com os relógios de Caxias não terminou. E acredito que não terminará tão cedo enquanto ambos existirmos. É natural numa cidade com fortes características industriais como a nossa, termos relógios espalhados e em monumentos, ditando nosso ritmo, como no caso da igreja São Pelegrino.

Mas o fato que vou contar em seguida foi um momento onde a magia aconteceu e eu estava sentada em um banco da praça Dante Alighieri, minutos antes do meio-dia, em um dia da semana.
Não, eu não estava alimentando pombos. Estava ali, estrategicamente em frente à Catedral, para analisar o cenário para o próximo desfile da Festa da Uva, que terminará na praça, com um grand finale.
Ao meio-dia o sino começou a soar. Era um lindo som. São raros os dias que me encontro no centro neste horário e, portanto, me senti num momento especial, de pura poesia. Desfrutei daquilo apreciando o cenário urbano com trilha sonora, até que as badaladas foram ficando mais baixas e mais esparsas como se estivessem se distanciando em direção ao infinito. Eu estava em êxtase aguardando o silenciar para me levantar e almoçar (afinal havia marcado a hora do almoço).
Instantes depois fui pega de surpresa. Ao final do soar do sino da catedral, surgiu um pulso marcante, um badalar forte e com personalidade. O som vinha da minha esquerda. Os dois sons se cruzaram por uns instantes, como numa polifonia, mas ao final ressoou apenas uma das vozes, esta menos melodiosa, menos reverberante, mais ríspida. Foram doze badaladas. E só. Havia se manifestado o relógio da indústria, o som vinha do relógio do edifício onde funcionava a Metalúrgica Abramo Eberle.
Ao ouvir esta sequência quase musical, me questionei se esta seria mais uma das coincidências da vida. Os relógios da Catedral e da antiga Eberle pareciam estar sendo regidos por um maestro. Quando uma melodia estava piano e sumindo, ele deu a entrada para a outra forte. Nos tempos exatos.
Após refletir e compartilhar esta história numa aula da especialização em Bens Culturais que estou fazendo, chegamos à conclusão de que não tenha sido ocasional este arranjo tocado pelo sino e relógio. Não voltei mais lá ao meio-dia para verificar se o mesmo aconteceria. Mas seria estranho os dois soarem ao mesmo tempo. Parece ter havido uma hierarquia nas manifestações – primeiro o da igreja, e depois o do que foi uma das maiores e mais influentes indústrias da história de Caxias.
Hoje o edifício encontra-se parcialmente utilizado pela FAI – Faculdade dos Imigrantes, por um estacionamento e por uma loja de brinquedos. Parte encontra-se em desuso.
Este edifício por muito tempo ficou fechado, em desuso, abandonado. Não estou certa, mas arrisco dizer aqui que talvez tenha um elemento que não parou de funcionar durante todo este tempo: o relógio.
É interessante ressaltar este fato porque a metalúrgica Eberle não existe mais, restou o edifício que muitos nem reparam. Porém o relógio sobreviveu. Ele representa simbolicamente a marca do seu tempo e o próprio tempo. O relógio é um símbolo de Caxias, um monumento e pode ser considerado, junto com o conjunto, um bem cultural material. Ele continua reproduzindo as badaladas – bem cultural imaterial – que ditavam e o tempo, os horários, as horas de jornada de trabalho, a hora de comer, a hora de dormir e que continuam no imaginário de quem viveu aquilo.
Se ele continua funcionando é porque ainda tem um significado. Em relação às iniciativas de preservação deste bem, o relógio me dá um alento porque me traz esperança. Ele me diz que de alguma maneira o edifício ainda pulsa, mesmo abandonado. E se pulsa é porque ainda tem algum resquício de vida. Podemos considerá-lo o coração do edifício?
O edifício da antiga Eberle necessita alguns choques elétricos culturais para reanimar e trazer o ritmo de volta, pontes de safena com parcerias, marcapassos com uma equipe de salvaguarda monitorando. As pessoas precisam correr nas suas veias novamente e livremente, em cada metro quadradro. Preservar e dar novos usos para reviver e seguir pulsando ao longo dos tempos.